terça-feira, 1 de maio de 2018

Ronda

                                        RONDA

                                       Baseado na música Ronda de: Vanzolini

   O sol acabara de se esconder atrás dos montes. Noite fria,a garoa cobria o asfalto da cidade de Sao Paulo de ponta a ponta. Ela entrou no banheiro, passou a maquilhagem como se pintasse a parede,se vestiu,pegou a bolsa abriu a porta e saiu.
           Andou por muitas avenidas, vasculhou cada bar que ele frequentava.  Esquadrinhou com os olhos atentos cada canto dos lugares que entrava. Cansada,desanimada e desencantada da vida , volta para o seu apartamento no centro da cidade, espiando em cada olhar de passantes, para ver se o encontrava.Se alguém que a conhecesse dissesse:--Desista,essa busca é ínutil. Ela não desistiria.
            Assim que entrou em casa, pegou o controle da televisão em cima da mesa perto do telefone e apertou o botão.  Passava um progama desses de sensacionalismo.  Recostou no braço do sofá e apagou. A porta abre,ele entra com uma caixa nas mãos. Caminha feito um felino até a cozinha. De costa, ela mexia em uma panela. Ele coloca a caixa em cima da pia, abraça-a por trás,beija-lhe o pescoço:--Assim você me faz queimar tudo. ----Ele ri,continua com as caricias e a beija-la nos seios:--Desse jeito sabe onde isso vai dar. ---Ele lhe pega nos braços,ela se estica e desliga o fogo do fogão. Ele empurra a porta do quarto com o corpo, ela ainda nos braços  dele rindo. A porta abre, ele cai com ela em cima da cama. É neste momento que o telefone toca,ela abre os olhos. Na tv passava os reclames da programação. Ela pega o controle e desliga a tv. O telefone parou de tocar.  Se levanta e vai para o quarto, para por um momento na porta, vê que ele não está lá. Foi só um cochilo e o sonho veio lhe machucar. Veste outra roupa,dá uma retocada na maquilhagem,abre a gaveta pega o revolve,volta para  a sala,coloca-o dentro da bolsa,olha para o relógio na parede e diz:--- Que merda! Dormi mais de uma hora. ---Vai  até a cozinha,abre  a geladeira,pega a garrafa,coloca a àgua no copo, termina de beber e sai.
        O frio e a garoa não impedia que pessoas vagueassem feito mortos vivo àquela  hora da noite. Algumas ruas etavam desertas.Mais uma vez andou de bar em bar, pelos lugares onde ele costumava ir e nada. Já estava desistindo,se sentindo infeliz. Resolveu caminhar pela avenida Ipiranga cruzando com  a avenida São João. De longe ela viu ele rindo, abraçado a outras mulheres com um taco na mão. No momento em que ia colocar a  bolinha na caçapa,os olhos dele a vê, a alguns passos. Sorrindo sem jeito,caminha ao seu encontro.-- Na certa a puxaria para o canto dizia que numa hora daquela não era hora de mulher direita está na rua, muito menos num bar-- Mas ela Olhando para todos  e fixando os olhos nele de braços abertos caminhando em sua direção.  Enfia a mão dentro da bolsa,retira o revolver,o tiro ecuou pelo ar. O  corpo ensaguentado ficou estirado no chao à vista de olhares indagadores.

 

                                              Camuccelli

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

De Uma Fábula

      Perto do poço onde as senhoras tiravam água, Miosóte corria atrás de borboletas. Ela amava todos os animais da floresta . Enquanto a mãe lava as roupas, ela não dava descanso às boletos e aos pássaros. A sua mãe lhe ensinara a pintar a cara. Dizia que era para esconder a sua beleza dos homens. Não podia passar perto dos garotos que elês a chamavam de minhoca da terra, e de caída dentro do fogo. O pó de arroz misturado com a cinza e água, deixava o seu rosto como se alguém tivesse jogado água quente. Em casa, a mãe tirava - lhe a as escamas do rosto, antes que o pai chegasse, nem o pai conhecia a beleza da filha. Olhos azuis, pele de pêssego, cabelos louros e longos. Parecia um querubim. Se ouvisse barulho de alguém chegando, imediatamente entrava com ela no banheiro e colocava a máscara de volta. 
         No ano que completara quinze anos, a sua mãe estava cozinhando, passou mal e morreu. Tinha prometido à mãe que jamais deixaria de usar o pó de arroz com as cinzas. Que só se revelaria àquele que arrebatasse o seu coração. Cuidava da casa, tirava o leite das vacas, cortava lenha e ainda ajudava o pai no plantio de trigo. Era amada por todos, mas nenhum homem se mostrava interessado por ela.

    

     Miosóte estava limpando a casa quando se lembrou da última semana com a mãe:---Prometa - me que nunca sairá de cara limpa pela rua? ---Hi mãe, claro que sim!----Vem! ---Puxou-a até o seu quarto. No canto havia um baú coberto com uma toalha xadrez. Ela abriu-o, retirou de dentro dois vestidos e os colocou em cima da cama:----Este aqui e azul da cor do céu com todas as estrelas.----Pegou o outro:-----Este representa a pureza, a honra e a sensibilidade. Por isso é tudo branco sem detalhe nenhum. ----E do fundo retirou um par de sapatos feitos de couro de jacaré:-----É para ti, mas só para quando completar vinte anos. O azul para celebrar as suas bodas e o banco, para quando for se casar. Jura que nem seu pai saberá de nada até a hora...quando a hora chegar. -----Miosote estava sem palavras. Jamais imaginária uma coisa assim. E jurou muitas vezes. Beijou as mãos dela e jurou novamente.  ---De volta à realidade, encostou a vassoura na parede. Entrou em seu quarto, abriu o baú, passou a mão pelo vestindo. Riu, se lembra da mãe puxado o baú para o seu quarto depois de ter mostrado tudo à ela. Ali o bau servia de banco, para sentar. Ela falou alto:----Nunca, nunca vou poder usar esses vestidos. O meu pai não vai permitir. Ele vive dizendo que feia do jeito que eu sou homem nenhum vai querer me cortejar. Não, prometi a ela que nunca.----Ouve o pai gritando, tampa o baú e vai correndo para a cozinha. 
      Chegou o dia, Miosóte estava em seu quarto experimentando o vestido azul. Cabelos soltos, pareciam fios de ouro. A pele do rosto se  assemelhava a um pêssego maduro. Ela olhava o seu rosto em um pedaço de alumínio redondo. Só podia fazer isso as escondidas. Estava tão entretida em seu estado de graça, que não viu o pai entrar. Estava ali há um bom tempo obsevando-a a se olhar no pedaço de alumínio. Não teve coragem de fazer quaisquer ruído que fosse para alerta-la. Quando ela se voltou e viu o pai a obseva-la, levantou o vestido e saiu correndo passando por ele bobo parado na porta. Ele não teve reação se quer gritou,  de tão enfeitiçado que ficara. Quando voltou a se, Miosote toca-lhe no braço e pergunta:---O senhor voltou sedo hoje? ---Foi como sair do céu e cair no inferno nos braços do poderoso de lá. Ele encarou a cara enrugada dela e disse:---Diz para a sua amiga que não maltrato mulheres. Não precisava sai correndo daquele jeito. 
     Daquele dia em diante, ele não falava outra coisa, a sua alma tinha se prendido a alma daquela mulher. Perguntava à Miosote quando ela a visitaria novamente,de onde ela era. De tanto ele falar da tal mulher, Miosote foi ficando triste, ficando triste. Chorva,pois o pai não parava de falar da mulher que roubara o seu coração. O pai muito menos sabia o porque de tantas lágrimas. Ela fazia tudo em casa, e quando se lembrava do que dissera o pai, se derramava em lágrimas. 
       Uma tarde fora apanhar água no poço que ficava distante de sua casa. Mulheres, crianças e jovens buscavam água para abastecer a sua casa no poço, os homens para os animais. Miosote estava olhando para dentro do poço, e as suas lágrimas caiam dentro dele. Puxou a corda com o balde cheio d’água, encheu o seu pote e quando foi coloca-lo na cabeça, viu uma senhora rindo para ela. A mulher se aproximou e disse:---Uma moça tão bonita, não devia se martirizar por tão pouco.--Miosote deixou o pote no mesmo lugar, olhou para ela por um bom tempo:----A senhora não está falando de mim. Olha para o meu rosto. Olha para o trapo que sou. Sou a mais odiada das criaturas:----Não, não diz isso!----A mulher se aproximou e a abraçou:---O meu pai está do jeito que está, é por minha culpa. Se tivesse ouvido a minha mãe isto não estava acontecendo:-----Quem pode prever. Se não usasse o que usa sofreria do mesmo jeito. -----Ela levou um choque. Como a mulher sabia uma coisa que só ela e a mãe sabia:----Não se assuste!  Amanhã por volta da meia noite, esteja preparada, uma carroça parará nos fundos de sua casa. Pegue o baú que a sua mãe deixou e se prepare. Do jeito que está, saia. O condutor a levará para longe do teu pai. Não se preocupe, nem se assuste.-----Depois de dizer isto, se afastou. Quando Miosote se virou para responder, ela tinha sumido. 
      Dentro do seu coração havia calma, havia paz. As lágrimas cessaram, a dor passou. Foi como se um gomo tivesse se soltado do tempo. Fez o que tinha que fazer para o pai. Não mudou nada. Fez tudo que a mulher mandara fazer. A meia noite em ponto bate à porta. Ela podia ouvir da sala o ronco do pai. Abriu a porta, um homem baixinho de idade avançada entrou sem dizer uma palavra. Foi até o quarto, pegou o baú e o colocou dentro da carroça cheia de palha. Em silêncio, ela ainda deu uma última olhada para a porta do quarto do pai. Seguiu o desconhecido, subiu na parte da frente e sentou perto dele, ele chioteou o cavalo e a carroça seguiu. Os galos cantaram em muitos lugares, a carroça sumiu na escuridão da curva. 
      O dia começava a amanhecer. O condutor deu um leve puxão em seu braço. Ela dormia encostada no ombro dele. Abriu os olhos e ficou paralisada com o que vira. A névoa cobria a metade do rio em volta do castelo. Os cascos do cavalo fazia barulho em cima das tábuas da ponte, quando estava diante do portão, ele foi aberto e a carroça entrou. Havia guardas por todos os lados. O cavalo parou, o condutor desceu e aparou - a nos braços, a colocou no chão. Pegou o baú,foi andando e ela o seguiu pelo corredor do castelo. Desceu uma escada e parou diante de uma porta, abriu-a e entrou. Colocou o baú no canto e a mandou se deitar em uma cama espaçosa, ela obedeceu, ele saiu e cerrou a porta. 
      Ela acordou com uma senhora gorda e grande a observa - lá. Havia uma bandeja com comida em cima de uma mesa com quatro cadeiras. A mulher riu para ela, fez gesto para que se levantasse e comesse, assim ela o fez. Quando terminou a mulher disse:----Vai fazer o serviço pesado, mas não tenha receio, é só no começo, depois que aprender o ofício, lhe dão uma coisa mais simples para fazer, vamos, agora que descansou e está de buxo cheio. ----Desceram uma escada, a mulher tinha lhe dado roupas de servente para vestir.  Quando chegaram na cozinha. Uma senhora bem vestida, magra e alta, parou diante das duas, olhou para Miosóte demoradamente, pediu que abrisse a boca:----Serve, está em perfeito estado. Foi bem recomenda menina, não vai roer a corda. ----Ela olhou para a mulher e disse:----Coloque--a na limpeza, nada de moleza! Se não nos servir, volta para a sua vida monótona de antes. ---Ela não respondeu, a mulher a levou para um canto, deu - lhe vassoura e balde. A senhora magra alta saiu pela porta.
       Trinta dias se passaram. As mulheres feito formigas entrando e saindo do formigueiro, iam dando forma aos quitutes em cima da mesa. Miosóte lavava e lavava o que iam colocando em cima da pia enorme. A senhora magra alta andava de um lado a outro dando ordens. A noite era noite de celebração pelo vigésimo aniversário do príncipe. Todo o castelo estava em alvoroço. A mulher magra queria ver tudo impecável. Nada poderia sair errado. 
       A noite chega, os convidados vão entrando pela porta principal. Miosote vestiu o seu vestido azul e se enfiou no meio dos convidados.  Não havia nenhuma moça mais bonita do que ela. Antes que o baile começasse o príncipe não parava de olha-la. Todos queriam saber de onde surgiu uma moça tão bonita. E o príncipe dançou com ela até o momento que disse que ia embora. Ele não disse não, tirou de seu dedo o anel cravejado de pedras preciosas  e a deu. Se virou e foi pegar algo para beber da bandeja que um garoto oferecia, quando se  voltou, ela tinha sumido. 
        Na cozinha no dia seguinte, não se falava outra coisa. Um disse para um, que disse para outro, e assim foi a semana inteira. O príncipe começou a passar mal de amor, depois de ter mandado procurar por ela em tudo quanto é canto e nada de encontrar. Ninguém sabia mais o que fazer para salvá - lo. Não havia remédio que o curasse. Foi definhando, definhando, aí Miosote pediu a mulher magra para fazer algo para o príncipe comer, já que não se alimentava. A mulher zombando dela disse não. A senhora gorda disse que mal não havia de fazer. Com muito custo, a mulher deixou,e ela fez um bolo. Quando o bolo chegou no quarto do príncipe ele nem olhou. Depois de muito tempo, pediu ao jovem que ficava o tempo todo ao seu lado para o bolo, no primeiro movimento com a faca, viu que tinha algo duro, com jeito abriu o bolo e o anel caiu no chão chamando a atenção do príncipe que deu um grito e pulou da cama. Queria saber quem tinha feito o bolo. O jovem com medo de ser castigado,disse que alguém trouxera da cozinha. Ele ordenou que essa pessoa viesse imediatamente a sua presença. 
         Miosote entrou no quarto do príncipe, ele olhou para ela e o seu coração acelerou, seus olhos não entendia a visão presente:----Você fez este bolo? ----Sim. ----Não era possível, a pessoa não correspondia. Não era, não podia ser a mesma pessoa.  Ela perguntou se podia entrar em seu banheiro. Ele apontou para o jovem que a acompanhou. Quando saiu de lá,  cabelos soltos, rosto limpo, ele disse disse:----É você. --- Daquele momento em diante ele se curou, e o casamento foi feito com a lua testemunhando a fragrância dos sonhos, consumindo os ritos de amor.  
                           Camuccelli.     

                                                                                              FIM

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Sob A Luz Da Lua

         As portas das selas, uma a uma iam sendo abertas. Ao longe se podia ouvir os rangidos. A penitenciária tinha três andares, os corredores pareciam infinitos. Quando eram abertas, ficava o vão e  a gente podia ver os presos se ajuntando feito lagartas numa folha de couve se espremendo para dormir. Mesmo assim, nenhum preso se arriscou  sair, se quer,se aproximou para averiguar. Hora de visitas, não era, muito menos banho de sol aquela hora da noite.  Era um silêncio de doer na alma, que foi espalhando pelos corredores. Um suspense de matar o espectador de olhos grudados na tela, se fosse um trilher de ficção. Um lugar de constante vai e vem, agora assim,morto. Batidas de latas nas grades, gritos...até os berros de todas as noites cessaram. Nenhuma viva alma se lamentando pelos corredores. Um grito ao longe, nada. As portas permaneciam abertas e os presos amontoados não tinham coragem de se aventurar a olhar, ou sair. Se um se atrevesse a se aproximar da porta, era puxado para o fundo.

       Amanhece. As luzes permaneciam acesas. O silêncio continuava a dor na pele. Nada, a rotina diária tinha sido engolida por ele. Nenhum grito, ou som de cassetete batendo nas grades para acordar aquele que estivesse dormindo. Aí, um homem do terceiro pavilhão se atreveu a sair e se encostou no parapeito de ferro para olhar para baixo e ao deredor. Observou meticulosamente cada espaço que os seus olhos podiam ver. Silêncio! Nada, nenhum sinal de vida na parte inferior. Voltou para a sua sela e relatou o que viu e ouviu. Como ratos desconfiados, como se fosse combinado,  foram saindo um a um. Se armando com o que esondera em baixo da cama. . Não se sabia o que havia no fim do corredor.
        Uma multidão de homens, sem camisa, de bermudas, desconfiados. Foram descendo para o pátio Viram que todo estava aberto, e nenhum guarda para os reprimir. Amontoados no pátio, onde tomavam banho de sol,sem  nada entender,  um deles, vestindo roupa de presidiário  subiu em uma coluna e disse:---- A gente não sabe com que intuição essa gente deixou as portas abertas. E uma noite inteira, só pode ser uma armadilha:---É como se quisesse que  a gente fugisse. Ouviram as sirenes? Só tocam quando algum preso foge. Pra ficar deserto é apagamento de arquivo.  Vão diminuir na marra---Disse um no meio da multidão:---Quem disse isso? Apresente. ---Falou o homem de cima da coluna:----Se nem o café teve. Tô com ele  e não quero nem saber o que  tá acontecendo. Na hora que a gente der dois passos, é tiro p'ra todos os lados. Eu não me arrisco. ---Disse outro no meio de todos:----Assim não dá gente. Quem falar tem que se apresentar. Fico eu aqui no topo me arriscando a levar um tiro, se...se é isso mesmo. Se for, não dá p'ra matar esse tanto de uma só vez.
        As discussões tomaram um bom tempo.  Aí descidiram formar uma equipe para sair e averiguar a situação, o resto aguardaria no pátio. Se não voltassem,  podiam fazer o que quisessem. O homem que subira na coluna, escolheu os dois que haviam falado e mais quatro,disseram que sete dava azar.
       Armados de pedaços de paus e estiletes, caminharam três de cada lado do corredor. Pararam na frente de uma sala com muitos monitores desligados. Não havia uma viva alma em parte alguma. Onde foram parar os guardas? O que teria acontecido ali?   Perguntas iam pipocando na cabeça de cada um a cada passo que dava.  Chegaram a uma área espaçosa na entrada da penitenciária. Havia um portão de ferro aberto a alguns metros da rua. Nada, ninguém para os impedir. As viaturas estavam estacionadas, mas os carros particular não estavam lá. O que havia falado com os outros, disse para dois dos que o acompanhava:---Agora quem se oferece para voltar e avisar aos outros que até aqui tudo limpo? --- Dois se ofereceram. Teve um que não concordou:--- Nos arriscamos nos corredores sujeitos a levar tiros, elês que se virem por lá:--- Dissemos que íamos  voltar. Não podemos continuar sem eles.---Disse O homem que os lideravam :----Quer dizer que só nós merecemos o céu? . E do outro lado do portão? Alguém sabe o que nos espera? ----Ele tem razão. Mais gente, é mais armas para enfrentar o estiver lá. Ninguém sabe o que aconteceu aqui. ----  Os dois jogaram os estiletes no chão e voltaram pelos corredores.
       O homem que intuitivamente guiava-os, tinha um corpo atlético. Aparentava uns 40 e poucos anos. Não usava barba, a cabeça era raspada no momento em que o preso entrava na penitenciária. O uniforme que usavam era cor de terra. Alguns presos discutiam as futilidades do momento, diziam que cor de terra não existe, a cor do uniforme era marrom escuro. O que gerava muitas discussões e não leva a lugar nenhum. As celas da penitenciária tinham sido projetadas para abrigar oito presos. As camas eram uma beliche de cimento armado, havia uma pia,um banheiro. Com a lotação, cada uma das celas abrigavam mais de vinte presos. No calor, virava um forno. As facções eram separadas,mas quando se encontravam na hora do banho de sol, corpos ficavam estendidos pelo chão.
     Assim que  os dois entraram no pátio...   por mais sagaz que fosse a mente,não conseguia processar o que os olhos viam pelo chão. Corpos rasgados por estiletes por todos os lados. Sangue esparramado pelo chão. Os dois ficaram paralisados. Um senhor gordo, com o uniforme ensopado de sangue disse:----Como foi? Tá livre ou não tá? --Nem conseguiram falar,balançaram a cabeça pra dizer sim. Como uma boiada estourada,foram atropelado tudo pelos corredores.
       Quando chegaram na área da entrada, o portão tinha sido fechado e o homem os aguardavam em cima da carroceria de um caminhão. Os detentos que iam chegando,iam se juntando aos outros aglomerados diante do caminhão. Assim que o último chegou, o homem começou a falar:---- Vendo a euforia latente em cada um de vocês, achei que era o meu dever dizer alguma coisa. Quando cada um de nós atravessar este portão, podemos ganhar a liberdade, ou sermos metralhados. Não sabemos o que nos espera do lado de lá. Não medimos a facilidade de chegarmos até aqui. Vocês não têm curiosidade? Não acha mamão com mel essa facilidade? Estamos aqui, e lá? Alguém tem alguma idéia? ----O silêncio imperou por um bom tempo. E o homem continuou:----Vamos imaginar que alguma coisa saiu errado. Um momento de guerra, uma força estranha tomou conta da cidade. Tudo é Possível! ----Um jovem se adiantou e falou:---A superlotação gente. Olha quantos homens, o pátio nem cabe. Assim que abrir o portão a gente é metralhado:----Somos rejeitos. ---O homem olhou para o jovem e continuo:--- A sociedade não nos quer. Aqui há assassinos, estupradores, ladrões. Não entra santo neste lugar. Se vamos atravessar este portão, temos que nos prevenir para o que vier. Dei umas voltas e vi na sala dos guardas muitas armas e roupas, fardas.----Até então, ninguém tinha falado da chacina no pátio onde se tomava banho de sol. A multidão de homens engolidos pelas palavras do homem em cima da carroceria do caminhão, continuava sem fala. Não tinham tempo de pensar, ou fazer. O que o homem dissera era o certo. Ele continuou:----Quero ver aquele que tem, ou teve um dia o sonho de ser um policial. Passe para a frente do portão. -----Quase a metade dos homens foram para a frente do portão:----Estão vendo. Todo homem atrás da máscara sonha por algum momento ser um tira. Deve ter alguém aí que sabe aonde fica a sala dos policiais. Se não sabe, fica daquele lado----Aponta a direção da sala:------Você que aceitou o desafio é quer ser um deles. Vá agora até lá, se vista e se arme, volta aqui para juntos sairmos para enfrentar o desconhecido. Os homens saíram aos gritos, gritos de alegria. Minutos depois, voltaram armados e fardados, mas nem todas conseguiram fardas, se armaram com o que encontraram:----Agora, vocês são defensores da cidade. Ele desceu do caminhão, com a ajuda dos companheiros, abriu o portão. Os homens fardados foram na frente como se estivessem numa área de guerra.
       O tempo não espera nem socorre ninguém. E passou feito um soluço. Era quase noite. Depararam com uma cidade completamente vazia. Nenhum cão, um gato, nada. Lojas com tudo dentro, supermercado lotado de artigos para o consumo e ninguém para comprar. Casas vazias. Uma cidade fantasma. Os homens foram para a praça no centro. Mais uma vez,o homem subiu no lugar mais alto para falar. Quando seus olhos ganharam a avenida central não podiam crer no que vira. Mulheres vestindo roupas de prisioneiras enchia a avenida. Muitas delas se vestiam como policiais, armadas, corriam em direção à praça. O vulcão majestoso com as lavas petrificada assistia o reboliço de pessoas sekreencontrando,abraçando o que conhecia, comemorando, pulando ,gritando. Outros entravam no supermercado, nas lojas. Tudo era festa. E a lua lá do alto parecendo um queijo canastra,  jogava seus primeiros fachos de luz sobre a cidade.
          Era quatro horas da manhã do maldito horário de verão. O silêncio imperava solitário sob as luzes artificiais enquanto todos dormiam. Subitamente, a cidade foi invadida por gritos de sirenes ensurdecedor. Como num palco para o início do espetáculo,  as luzes das casas iam sendo acesas uma a uma. O serviço de sismologia tinha detectado perigo vindo das estranhas do vulcão.
        A milhares de anos,a cidade tinha sido construída ao pé do vulcão. A última erupção tinha sido a mais de cem anos, mas naquela manhã, antes que o sol iniciasse o seu turno, ele resolveu acordar e acordou a cidade.  Naquele momento, nenhuma fumaça havia, ou chama em seu topo, mas o serviço avançado e certeiro denunciara que as lavas estavam subindo para a superfície. A cidade inteira seria destruída. Para que todos...todos pudessem ser salvos quando esse dia chegasse, foram colocado detectores sismológicos em toda a sua extensão. Agora esses detectores estão dizendo que o gigante acordou. Já se podia ver uma fina camada de lava descendo sorrateira pela parede e se olhasse bem, a fumaça subindo com algumas chamas. O corre corre foi acelerado. A pressão aumentada e a população se agitava em toda a cidade.  Quando o sol bateu o seu cartão de pontos para entregar o seu turno por mais um dia de trabalho, a cidade já etava vazia. Cada cidadão colocou o que pode em seu carro e fugiu para não morrer.  Veículos fora  disponibilizados pelo prefeito para aqueles que não tinham como carregar os seus pertences. Antes que alguém pudesse parar para refletir, já tinham evacuado a cidade.
                                                                                                                Camuccelli.