INCOMPATÍVEL
Ela chegou contando marra,
Me olhou do nariz até o calção,
Falou da alcaparra,
Que comprou para o salmão,
Sou eu quem faço a comida,
Até a laranja espremida,
Ela pede pra adoçar,
A noite ela não me come,
É não me manda esperar.
Se eu lavo eu não cozinho,
Se eu cozinho eu não lavo,
Fico olhando para o teto,
Enquanto ela ascende o cigarro.
O REBENTO
Que vergonha,
A cegonha enganou o patrão,
O coitado se divertia na sala,
Vendo programa de televisão,
No quarto ela surfava,
Engolindo inteiro o potrão.
Passados nove noites e dias,
De insônia de chama e labor,
Numa manhã depois do nascente,
Exibiu finalmente o rebento,
Com requinte de bom protetor,
Olhos arregalados, cabelo amassado,
E a tez da cor do cimento,
O reboco foi outro que deixou.
No bastismo houve coro,choro,
E até depoimento,
Fez-se registro,
Fez-se o que pode,
Houve declaramentos.
Diante de todos,
Não houve constrangimento,
Na frente da prole,
Entre gente e serpentes,
Diante do pai,
Pois o outro tava ausente,
Tudo declarado,
Em nome do rebento.
DESTOANTE
Tenho medo de ser picado,
Por um labrador,
Se não há cobertor,
Quem vai secar seu frio?
Se é fora de estação,
A flor já secou,
Se não existe amor,
Pra quem o desafio?
Estou farto,
Desse corredor,
Se for,
E se eu não for,
Pra quem então,
Que eu crio?
SEM PRESSÃO
Se a mão se acha a baixo do umbigo,
Agarra o coitado,
Sova-o como se sova o pão,
O tempo para, a pressão sobe,
Estica o calção,
A frequência aumenta,
Mão não repara a oscilação,
Ora acelera, ora é câmara lenta,
E só para quando o coitado golfar,
De manhã se retoma o ritual.
O Olho, A Trave
Vi,vi sim!
Embaixo d'um arbustro,
Um jovem esfaquear a mulher,
Em sequencia e com atenção,
Vi a faca entrar e saia muitas vezes.
Não entendi quando ele a virou de costas,
E a apunhalou com vontade,
A boca desfiou um grito sem dor
Nenhuma gota de sangue vi escorrer,
No fim,
O corpo ficou derramado no chão,
Ai vi a faca voltar à banhinha,
Flácida,cansada desolada e só,
Nada mais vi,
Só dois corpos acabados,
Suados e largados no chão.
Camuccelli