quarta-feira, 9 de março de 2011



(Maria tereza está à janela olhando quem passa.Vai dizendo bom dia, um a um).



TEREZA:-Bom dia seu Jenuino! Como é,colhe ou colhe a roça? Com a geada que tem dado né! Esse aí planta dois grãos de milho,quer colher duas toneladas.Tem a paciência! Bom dia Dona Aurora! Tá vindo aí! O cata osso inda não chegou.Sabe como é,tem dia que atrasa,se não furar pneu no caminho, vem. É Maria Elvira a minha irmã. Vem passar o fim de semana aqui.Nesta cidade, o sossego que é,serve de refresco pra que vem.Lá na cidade dela é...a paz do Senhor pastor!Olhe nesta semana não vou poder ajudar na igreja.Vou ter que fazer gosto a Maria Elvira,minha irmã!...a cidade dela...olha lá! Vem ele fumegando feito maria-fumaça.(Ônibus pára diante da venda.Tereza vê a irmã sair dele.Fecha a janela.A irmã bate uma vez,duas vezes.Na terceira vez Tereza abre a porta)
ELVIRA:-Pensei que não morasse mais aqui.Deus me livre fazer esse caminho de volta.Eu não ia suportar.Quanta poeira há nestas estradas.Parece que a gente está dentro de uma maquina de lavar roupa.Ô lugar longe!
TEREZA:-Meu Deus do céu,é ocê Maria Elvira? Tava na cozinha passando o café.Nossa,como cê tá magrinha! Como esses brancinhos conseguiram carregar estas malas da venda até aqui? Devia ter pedido,que seu Juca mandava o menino ajudar.Pra que tanta mala?Pra quem vai ficar só um fim de semana! Deve de tá entupida de roupa.Aqui não tem nada pra ver.Essa cidade é muito quieta.De vez enquanto morre um pra tirar o sossego da gente.Cidade de pouca gente.De gente honrada.
ELVIRA:-Talvez não fique nem uma semana.
TEREZA:-Deixa estas malas aí.Vem cá pra cozinha.O café tá pronto!Cê deve de tá cansada.Viajou a noite toda. Esse cata osso parece um moinho d'água.Se quiser tem sabão,toalha e água é o que não falta.Vai lavar o rosto e as mãos.(Ela vai até o banheiro,volta com as mãos pingando água)Toma a toalha,enxuga estas mãos.(Pega o pano de chão e vai secando as gotas)Meu ladrilho,meu ladrilho!
ELVIRA:-Descansa Tereza!Nem ladrilho isto é.Ardósia é que é!
TEREZA:-Pode me chamar de TÊ,é curtinho.Bonito, e fácil de pronunciar.Todo mundo aqui me chama de Tê.
ELVIRA:-Eu sempre a chamei de Tereza.Não é agora que vou mudar
TEREZA:-Não custa nada! Vou levar a mala lá pro quarto.Que tem dentro? É chumbo é?Nossa que peso!

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DE CORPO PRESENTE






ATO I



CENA I

(Tereza está à janela, vê um menino correndo, grita).

TEREZA:-Pra onde vai com essa pressa toda menino? Ouvi,claro que ouvi!
É o sino tocando pra anunciar a chegada do padre? Quem menino?O coronel Deudato da Fonseca o que? Caiu o quê? Caiu o quê?..De quê?…espera ai!Espera aí menino. Fala mais devagar! Pára de correr e fala peste!
ELVIRA:-Quem caiu do quê Tereza?


TEREZA:-Tô tão acostumada com os que me chamam de
Tê. Até me esqueço que me o meu nome é Tereza.O coronel Deudato da fonseca caiu morto!Tava dando milho pra galinhas.Caiu com a língua de fora.Morreu! Tá lá no inferno.Nunca fez nada de bom pra esta cidade.E o padre que vem, já começa com um defunto pra encomendar. Já vai….Olha lá o cata osso já chegou.É o padre descendo com uma mala na mão.É moço!Muito moço o coitado.Tá aproximando,tá aproximando! Boa tarde seu padre! Fez boa viagem?Chega sempre atrasado seu padre,quando não quebra no caminho, ou… atrasa.(Dirigindo-se à Elvira) Só abanou a cabeça.Padre metido! É o que eu digo,salvos aqui,só nós os Batista.O resto,Deus tenha piedade,estão é no inferno.Tempo há,se se converter de todos os seus pecados.
ELVIRA:-Vou tomar um banho,me vestir,sair por aí pra ver, e ouvir as novidades.Conhecer o tal padre.


TEREZA:-Trocar de roupa pra que? Esta ainda tá limpinha! É casada,mas não honra o nome do marido.Basta sentir cheiro de homens que já se arreganha toda.Essa aí não consegue se manter de pernas fechada.


ELVIRA:–(Chega à porta enrolada numa toalha) Ouvi viu! Com a mesma medida que mede,será medida.A boca fala do que está cheio o coração.


TEREZA:–Eu hein! Agora essa!


CENA II


Cena 2

TEREZA ESTÁ À JANELA) TEREZA:–Bom dia seu Juca! E as crianças? O senhor continua a mancar seu Juca!
Tô vendo! Tô Vendo! Vá à igreja seu juca! O pastor faz uma oração forte,o senhor fica curado.Joga esta muleta fora seu Juca.Com jesus tudo é possível!Ele levou sobre si as nossas dores.Vai mesmo,vou ficar esperando…Vai indo dona Maria da cov aves.Pois é, se fosse na fazendo do falecido,eu ia.Em casa de pecadores não entro.No cemitério que nos recebe de braços abertos…Hi foi? Essa gente não respeita nem os mortos.Que atrevimento,hein! Vou ficar esperando sim.Pra senhora também!
ELVIRA:-Atrevimento de quem Tereza?
TEREZA:-É dona Maria das coves me falando da confusão no velório.
ELVIRA:-Acabou logo.O homem quis apontar qualidades e defeitos do coronel.
TEREZA:-Mas, a missa foi rezada?
ELIVIRA:-Em latim!O padre disse e não disse nada. Virou as costa e rezou em latim.Ninguém entendia uma palavra.Foi uma missa de velório.Língua morta, para um indecente morto.
TEREZA:-Deus me livre! Latim?E o..que venha a ser?
ELVIRA:-É uma língua morta.Caiu em deuso. Antigamente O mundo falava latim ou espanhol.Era a língua dos mares e da terra.Quem não falasse não fazia parte da sociedade.Mataram a língua.Hoje alguns padres falam e é só….fiquei pensan do naquele momento.Quantas crianças retiraram balas na algibeira do coronel?Ele mandava a criança enfiar a mão dentro da algibeira.Bala mesmo a coitada não pegava.Ainda te lembras Maria Tereza?
TEREZA:-Tô sentindo um cheiro esquisito saíndo dali.Tá com jeito de tenda queimada.
ELVIRA:-A coitada da mamãe correndo pra tirar a criança,filho do coronel?O papai não podia saber…Ah,Tereza! Te lembras das balas da algibeira do coronel? Não foi fácil pra mamãe esconder do papai o filho que o coronel lhe pôs.te lembras disto Tereza?
Aqui, Nenhuma criança escapou das balas do coronel.Nem eu! Era estímulo pra mim.Como eu gostava de procurar balas na algibeira do coronel.
TEREZA:-Tem é rato morto em baixo desta cadeira.(Procura o rato)Será a minha mão? Lavei as minhas mãos inda agora.Fubá suado queimado!Tem uma coisa fedendo aqui.
ELVIRA:-Foi uma noite pra relembrar.E o coronel?.. Se regenerou Tereza?Falo de continuar colocando balas na algibeira…Não.As crianças de hoje são mais sabidas.
TEREZA:-Passando pano no assoalho deve tirar o cheiro.Cheiro de rato morto empestea toda a região.E dona Maria das coves que não vem.Esse rato tá precisando é de uma ratoeira..Tão símples é vida,que a gente nem percebe..E o trabalho que dá pra criar uma criança nos dias de hoje.Será que a dona Maria das Coves se esqueceu de mim? Se eu lavar com cuiadado sai o fedor?
(TEREZA OLHA PARA ELVIRA UM TEMPO)
Cê deve de tá com fome.
ELVIRA:—Não.Já comi.
TEREZA:—Comeu aonde.Na igreja ninguém dá.Ainda mais com esse padre.
ELVIRA:—Comi Tereza! Comi!
TEREZA:—Sê besta,eu faço uma merendinha Não demora.
ELVIRA:—Chega Tereza.Que apurinhação.
TEREZA:—Não quer,não quer! Depois que foi morar na capital ficou assim.Metida,esnobe.Quem ocê pensa que é.Vem carregada de roupa.Troca uma de manhã,no meio do dia e ainda troca de noite.E o sapato de salto pra andar nesta rua lamacenta.Não quer,não quer!
ELVIRA:—Vou é me deitar.Ufa que saco!


(TEREZA VAI DE VAGARINHO BATE NA PORTA)
TEREZA:—Se quiser um chá eu faço.


REVELAÇÃO 20:3


ATO II revelação
CENA I
TEREZA:-Vai sai? Trocou de roupa.Desse jeito vai acabar com as suas roupas novas num piscar de olhos. Troca de roupa,como quem troca o perfume.
ELVIRA:-É pra ser apreciada.De propósito!Gosto de sair limpinha.Ser vista desejada. TEREZA:—Com a quantidade de homens que aqui tem.Vai servir é de caçoada.Já tem gente falando.abra bem os olhos.
ELVIRA:—Dispeito.Se falam é por dispeito. (ELVIRA SAI,TEREZA CORRE PRA JANELA)
TEREZA:-Vê se não volta tarde.Não vou ficar esperando, até de madrugada.E janta lá,aonde o galo canta ele janta. como vai comadre Ana?Que foi aquilo comadre?Aquela gente gritando feito cachorros brigando.É o quê!O Juventino é? Que fez o Juventino desta vez?Foi esss..faqueado?Esfaqueiado comadre! por quem meuDeus? Era pra isto acontecer um dia.É… tinha de acontecer.Um homem faz os outros beberem a força.Acaba aparecendo outro maior e tira a magestade dele.E batia na cara dos bestas daqui.Nem morar aqui mora.Ele pega o seu cavalo e vem pra cá berber,raparigar e insultar os besta desta cidade.Quando o coranel era vivo, peitava o valente.Agora com o coronel morto.Ainda bem que apareceu esse de coragem.Ou…Agora é orar.O cão morrer,senão coitado do…quem foi mesmo comadre Ana? quem fez esse favor a cidade? Ninguém viu?O povo tá é com medo de delatar o bem feitor. Ouvi! E aquilo era pedindo água?Aquela gritaria parecia d’um boi sendo cortado ao meio. Deus me livre,vou lá não! Agora é assim… um morto atrás do outro.O cemitério não vai mais cabê tanta gente.Duma hora pra outra…é comadre! E ninguém sabe como isto acaba. Cadê os homens que não acode o malvado?Já vai comadre?Vai com Deus! Dê lembraças minha à minha afilhada. Nem na hora da morte o miserável tem quem o socorra! Tá lá morrendo feito onça ferida.Numa hora desta nem os parentes aparecem.É na morte que os parentes são os melhores.Choram,elogiam,contam metiras.A gente tem que fazer pro sujeito,enquanto ainda vive.Depois de morto o defunto não precisa de mais nada.Só de terra.Senão fica apodrecendo e fedendo pelos cantos.Se tem Jesus,tem esperança de uma outra vida melhor.É descançar nos braços do pai que é bom.O resto é restolho.Só Jesus é a salvação.Eu não passo por um tormento deste tamanho.Na hora da morte vou é feito passarim.

CENA I


Cena i

TEREZA:Parece que acordou disposta hoje?Está com cara de quem andou chupando uva.
ELVIRA:-É de quem amanhceu bem! Eu não diria uva Tereza!A fruta é outra.
TEREZA:-Ontem tava com o diabo no corpo.Agora tá ai com essa saliência toda.Nem vi quando chegou.
ELVIRA:-Não quero discutir nada hoje.É o meu dia de reflexão.É Deus por nós,e o resto que se assuma.Quero é aproveitar enqunto o perfume ainda me acalma a pele.Amanhã!….Amanhã estrei longe disto tudo.Pelo menos alguma coisa boa levo pra me lembrar.
TEREZA:-Meu Deus,já é amanhã!O tempo passou como o vento. Hoje noite vai visitar a minha igreja né!
ELVIRA:-De jeito nenhum! Deixei a noite pra visitar a prima Ritinha.Amanhã sacudo a poeira.Vou sair bem cedo!
TEREZA:-E a promessa? Prometeste!
ELVIRA:-É que aconteceu tanta coisa,numa semana só.Nem deu tempo nem pra pensar.Amanhã viajo mesmo.
TEREZA:-Queria tanto apresentá-la ao meu pastor.Falei de ti com tanta alegria.As irmãs preparam até uns texto da Bíblia pra ler.
ELVIRA:-Pois é! Da próxima vez eu visito a sua tão aclamada igreja.Desta vez não dá.Tentei Tereza,mas não se pode fazer tudo ao mesmo tempo.Ou abro o sorriso,ou me desaguo em lágrimas.Uma coisa de cada vez,não mais.E a Bíblia leio em casa a noite com o marido.É bem lembrado o conselho.
TEREZA:-Que se é de fazer.Mas hoje almoça comigo?Desde que chegou só fica pra lá e pra cá.Comeu aqui só no dia que chegou.Passa tão depressa os dias.Nem parece que aconteceu o que aconteceu aqui.É minha irmã.A gente esquece tudo depressa demais.
ELVIRA:-Fica tudo mundo querendo que almoço na casa deles.Sou uma só gente! E o…Joãozinho me espera hoje na casa dele.
TEREZA:-Joãozinho!!!E a mulher dele sabe? É apressada boba,mas sabe.A cidade toda conhece bem as amassadas de mato dos dois.agora a besta cozinha pra…..

ELVIRA:—Olha lá o que vai dizer com isto.Sou casada,e bem casada.
TEREZA:—E chega as tantas da noite e suspira de manhã.Cheia de cheiro dele.Foi ocê mesma quem disse.Eu só ouvi.
ELVIRA:—Miseravel! Galinha de angola.Não ponha coisas nos cantos da casa.É desse jeito que quer ir para o céu? Filhote de belzebu.(Tereza tasca um tapa com as mãos abertas na cara de Elvira que enconde o rosto com as mãos.Tereza não se dá conta do que fez.Tenta desfazer.
TEREZA:—Meu Jesus,meu Deus ela me atiçou! Elvira,Maria Elvira em nome de Jesus me perdoa! Ai meu Deus,a minha mão! A minha mão! Ah,ela é leve não há de deixar marcas.
ELVIRA:–A gente esquece,e é Deus quem perdoa.
TEREZA:—Jesus perdoa e disto não me lembrarei mais.
ELVIRA:—Uma bofetada afeta,marca o coração da gente.Se até a primavera volta.Do pensamento a marca não sai.
TEREZA:—O primeiro homem a mulher nunca esquece.
ELVIRA:-Por isso não foi ao enterro do coronel?Quem lhe disse que Joãozinho foi o primeiro na minha vida?
TEREZA:-A gente imagina.Vivia os dois agarrados…as suas insinuações não me supreende…Se não foi ele,quem foi?
ELVIRA:–Não foi o mesmo que pôs uma criança na sua barriga?
TEREZA:-Vou começar o almoço.Vou começar o almoço! Já que vai comer por lá mesmo?
ELVIRA:-E a sua a curiosidade? Fica assim… muda?
TEREZA:-Panela que muitos mexem,queima,ou fica salgada.
ELVIRA:-Então até!Não pense que vou esquecer o tapa.O seu Jesus também não vai.(Ela sai.Tereza corre pra janela)
TEREZA:-Bom dia dona Maria das coves! Que noite hein!Acabou de sair.Só fica na rua, de casa em casa.Faço tudo pra mantê-la aqui comigo, ela parece não gostar da minha casa.Faço o que posso.,Obrigar não posso. E o tal do homem,morreu.Não tenho ouvido mais gritos.Como
assim dona Maria? O padre levou lá pra igreja?Esse padre é louco!
Além de rezar missa em latim,entope a igreja de escarnecedores.Adoredores do diabo.Sem contar as
donzelas que deixou embarrigadas por ai.Eu sei dona maria.
Devemos amar o próximo como a nós mesmo.Tá,tá escrito! Mas,
Esse só pode ser próximo do cão.Me admira a senhora com uma
conversa desta.Porque não levou pra casa da senhora então?
já tá no inferno! A senhora não lê a Biblia né! É rude de tudo.Leio
sim.Pelo menos sei ajuntar as letras.Dá pra ler sim.A senhora nem
isto sabe.Se pelo menos soubesse escrever o nome. Vai cuidar das suas couves! Ao ínves de ficar cuidando da vida alheia,não vai tirar os piolhos das suas couves.Com licênça dona Maria das coves.(Fecha a jenela)Gente iguinorante! Onde jé se viu colocar um moribundo na companhia da gente.É louco de pedra
esse padre.Pra quem reza missa em latim.Pode se esparar tudo.(Ela abre a
janela novamente) Hei menino! menino,venha cá! Vê em que casa Elvira está.Na volta,passa na igreja,pergunte o padre como o homem está.Ora que homem?
Juventino,o que foi esfaqueado na venda.Quando voltar lhe dou um ovo,se a galinha botar.Tá bem dou dois! Vá logo,vai!…A paz do senhor Comadre Ana.Pois é! Ainda nem bem o padre Eusebiu é plantado,já se prepara festa pro padre novato.Se bem que o padre Eusebiu já passava o dia pulgando os pecados da carne.Aí o coranel morre.Põe água no fogo,a festa acaba.É tanta enchente em tão poucos dias.Não há terra que suporte.É comadre,a gente tá precisando orar mais pra este lugar.O diabo anda em derredor.(A dona Ana sai),ô comadre!..Me deixou falando sozinha!

CENA II


Cena 2

TEREZA: Será que ele já foi desta pra melh…no caso do sujeito, é pra pior mesmo?

ELVIRA:-Vai lá ver.Já que a curiosidade é maior.
TEREZA:-Deus me livre!Sangue de jesus tem poder!Naquele antro de perdição?
ELVIRA:–Jesus não disse: amar ao próximo com a ti mesmo?Amar ao próximo Maria tereza,é querer tudo aquilo que queremos para nós.É sentir por ele o mesmo que sentimos por nós. É dar a ele, aquilo que almejamos para nós.Como a ti mesmo.É como se o próximo fosse parte de ti.Se ama alguém assim. Não vai querer mal à ele.Aquilo que não quer para si,não quer para o seu próximo.Se você não ama ao seu irmão que vê; não pode amar a Deus que não vê.Lembra da parábola do bom samaritano?O padre é o bom samaritano.Mas,o coração do homem é enganoso.Bom samaritano é o que socorre,ampara,ajuda sem querer algo em troca. E é um ato de amor sim.Quem assim aje, cumpre os dois mandamentos:amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a ti mesmo.Cumprindo as profecias e os profetas.
TEREZA:-O passarinho coitado!Esqueci, coitadinho!Sabia qua tava na hora e nem dei conta do atraso.Vai acabar morrendo se não me apressar.Vou ver,já volto! Tadim do bichi!( ELA VAI ATÉ A COZINHA E VOLTA COM UM PRATO NAS MÃOS) .Fiz um mingauzinho p’rocê besta. Tá quentinho quentinho! Agasalhei o bichinho.Se a gente não cuida,morre. Fiz p’rocê! Coma enquanto tá quentinho.Hoje é dia de frio né!Tem dia que venta tanto.Hoje é um desses dias.Mingau quente é bom,esquenta o peito né! se chove,Deus me livre! A rua fica que é lama só Ainda bem que não me descuido.(Elvira come o mingau,sente uma sonolência).Quer dizer então que amanhã bem cedo embarca.O cata osso sai muito cedo.Tem de descansar.Amanhã será dia de folga.tá é comsono.Do jeito que anda.Tinha mesmo que ficar.Vai dormir lá na cama.Vou lhe ajudar.Magrinha,mas é pesada.Depois levo a sua bolsa.Numa cidade nanica feito a cabaça é preciso carregar bolsa? Quando for embora vai ficar todo mundo falando.Eu é que fico ouvindo a conversa fiada.

A CADELA



ATO I A cadela

Uma cadela mansa,jamais ataca uma pessoa.Ela lhe deixar se achegar à ela.Até lambe a sua mão.Quando a gente menos espera,ela chega de mansinho,morde o calcanhar da pessoa.
TEREZA-Este quarto tem mais conforto.Nem falo da cama larga.
Do banheiro.Mas, do conforto e do silêncio.Aqui nada se ouve.Quando
a gente quer comer.É só puxar a cordinha ali,vai dar diretamente
na cozinha.Pra buscar,é a mesma coisa,os pratos sobem parede
acima.É uma verdadeiro alçapão.
ELVIRA:-O meu corpo tá todo moído! Que horas são Tereza?
TEREZA:Isto nem importa querida. O tempo aqui em baixo é suave,parece não passar.
ELVIRA:-Marquei de almoçar com a dona Maria das coves.
A mulher vai ficar uma fera se eu não for. Adeus descanso amanhã.
TEREZA:-Tem uma coisa que ocê precisa saber. (ELA INTERROMPE) ELVIRA:–Dormi feito pedra…E o que é? Nem vi a hora que cheguei.Esta gente gruda que nem carrapato.
TEREZA:-Hi, numa hora desta ocê já tá é folubiando com o seu marido!
ELVIRA:—Amalucou agora.Que conversa esta?
TEREZA:-Num foi ocê quem pegou o cata osso a três dias atrás pra voltar pra sua casa? Num foi ocê quem se despediu de todo mundo e foi embora?

ELVIRA:–Fui embora como,se acordo ainda aqui de camisola ? E… e Esse corpo todo moído,parecendo que levei uma surra de vara verde.
TEREZA:-É!….Precisamos acertar as coisas,tô vendo que ocê ainda não sabe.Ocê tá precisando é de cuidados.Vou cuidar d’ocê como quem cuida d’uma florzinha delicada,e frágil.Ocê vai se render a Jesus.Ocê é a única pessoa que tenho na família.A minha salvação,é tua salvação.Não posso ir à Deus deixando a última ovelhinha pra trás.E quando aceitar ao senhor jesus como o seu único salvador.Aí cê vai comigo à igreja e será a maior satisfação.Uma alma será salva,e haverá festa no céu.Sabia que pra cada alma salva há uma festa no céu?Apresento-a ao pastor.Ocê aceita Jesus como o seu único salvador.Só isso!Tem nada demais?E é pro seu bem que faço assim. moraremos no céu Maria Elvira.Vamos nos encontrar com Jesus nos altos, juntas. Cê anda muito magrinha.Vai se alimentar bem e vai engordar.Vai ficar como eu.Aí,só aí, lhe levo à igreja.Não vou querer tudo mundo rindo na minha cara dizendo que lhe matei de fome? Não,vamos ficar juntas minha irmã, juntas!
ELVIRA:-Fico imaginado a cara que a mamãe faria se estivesse aqui,e ouvisse a besteira que acabo de ouvir.É de brincadeira,né não? Vou sair,finjo que nada disto foi dito.Amanhã escapo da sua armadilha.Franacamente Tereza,francamente!
TEREZA:–Tem ninguém a lhe esperando lá fora não.Cê tá na sua casa lá da cidade grande.Numa hora dessa tá beijando, e cozinhando para o seu marido.Se é que ocê faz comida pra ele.Tem como escapar de Jesus não.Ele tudo sabe,tudo vê.Tem pra onde escapar não minha irmã.
Aqui todo mundo sabe a vida de todo mundo.Era uma cidade tranquila até ocê chegar.Ocê precisar fazer jejum,e orar pra tirar o diabo do corpo.Sua vinda pra cá trouxe foi morte pra esta cidade.A primeira vitima foi o Padre Euzebiu,o coronel Deudato.Depois o Juventino.Foi só descer do cata osso,pra o mensageiro da morte descer contigo.
É preciso Maria Elvira…é preciso tirar o diabo de dentro do seu
coração.Cabeça vazia,é oficina de satanas.Aqui em baixo,vai poder se curar.Vamos lavar seus pecados no sangue de Jesus. Será outra,as tuas vestes serão lavadas no sangue de Jesus. A honra desta família será restituida.A moral e os bons costumes.
ELVIRA:-Que maluquice está me dizendo?Recuso-me a crer nisto! Não estou aqui pra ouvir isto.Não me obrigue a engrossar.
TEREZA:-Magrinha do jeito que é,não vou precisar fazer muita força.
ELVIRA:-Vai me bater?
TEREZA:-Se precisar,vou.Deu-lhe um pescoção!
ELVIRA:-Sai da porta Tê.Por favor,me deixa passar!
TEREZA:-Agora me chama de Tê né.No dia que pedi,zombou de mim.Tem mais essa de Tê não.Nem marmeda tem mais.Agora é a hora da conversão.É Jesus que está no comando agora.
Deus é de prova que faço isto pro seu bem,nada mais.Devia é me agradecer por pensar na sua saúde,e na sua salvação.nem nisto cê pensa.Estou esvaziado a sua cova.Nossos corpos serão
transformados.Outros morreram a nossa morte.Nós ressucitaremos em Cristo Jesus.Querida irmã.Tenha uma boa noite!Coma o mingau enquan…já esfriou!Agarramos a conversar.Esqueci de olhar o mingau.Vou preparar outro.
ELVIRA:-Precisa não.Não vou comer até que me deixe sair.
TEREZA:-Bom! É bom,jejum santifica e purifica.Vou trazer assim mesmo.
(Tereza sai,tranca a porta por fora)

CENA II

Cena 2


TEREZA:– (Abre a janela) Bom dia sol! Bom dia! (Vai passando dona Ana)Bom dia comadre Ana! Não parece que tudo mudou de repente? As borboletas estão mudando de cor. Ih, já deve tá beijando o marido!…Maria Elvira ainda não tem filho.Saiu cedinho,cedinho.A senhora sabe, quando não atrasa,o cata osso sai no horário.Coitadinha da Elvira,saiu cochilando.Se né eu que acordo cedo,tinha perdido o cata osso.E o homem comadre? Até que enfim hein!Já foi enterrado? Nem velório teve? Aquele já tava morto né comadre!Só faltava cair.Sofreu o coitado.”Pulgou” bem os pecados que tinha.É a Maria Elvira que tinha razão! Alguém precisava ajudar aquele onça.Não ficava bem ali no canto gritando feito cão ferido comadre! Pelo menos lá da igreja os gritos não sairam.É comadre,se não é por Jesus,nem sei o que seria de mim.Pois é! Já acostumei com a vida de gente sozinha.Fazer falta,vai.A gente acostuma com tudo né!.Com a morte é que não há meio de se acostumar.Vou levando conforme Deus quer.Vou ter menos pra fazer.Ela disse que volta um dia desses.Disse pras pessoas da cidade, é.Pra mim Maria Elvira nunca disse nada.Ela não saía das casas dos outros.Pra eles a saudade vai ser maior.Aqui ela mal comia comadre.Fez aminha casa pensão. Só pra dormir..Entrava e saía.É comadre! Parente,a gente tem de aturar não é!Mas, ela se foi.Agora a vida é outra.O rio continua no seu curso natural.Né passarinho verde não comadre.Não sei o que deu em mim.Levantei com vontade de varrer a casa.Lavar as roupas de cama.Dar bom dia a tudo.É por alívio não.Aqui no fundo do coração tem um pontinho de saudade.Então tá comadre! A paz do senhor pra senhora também.Ê seu Juca! A muleta continha em baixo do braço!Se tivesse ido lá igreja, estava por ai saltando feito cabrito.”Eis que estou à porta e bato,se alguém abrir a porta,entro”.Fui eu não. Foi Jesus que disse seu Juca.As pessoas esperar a doença cair pra depois buscar o médico.Pro senhor também.A gente dá o remédio eles não tomam.Depois quer ver o milagre acontecer.Não há causa sem êfeito.Pra que o milagre aconteça a gente tem de fazer a nossa parte.Não vai à igreja,quer que a gente ore é de longe.Pois bem! Essa gente não aprende nada.

CENA III

Cena 3

No espaço do quarto,tem uma cama bem larga.Perto da porta de entrada,há uma porta que vai dar no banheiro.Na parede perto da porta,há uma minúscula janela,de onde se ouve o barulho de água.Maria Elvira lê uma bíblia assentada na cama)

ELVIRA:–Estou besta.Tereza Deve está retornando a nossa infância,quando me trancava aqui,depois voltava rindo e se desculpando.É no mingau que colocou alguma coisa!…Foi o que comi ontem a noite quando cheguei.(Ela fala imitando a Tereza) Fiz p’rocê besta! Naquela calma! Quem não comeria? Três semanas!…É…
não devo dar atenção as coisa ditas por ela.Deitei-me ontem na cama.Lembro-me ter sido levada por alguém até a cama.Foi ontem,não é uma semana como diz.Ainda estou com a mesma roupa.Se dormisse uma semana inteira,teria morrido.Esta camisola estaria um fedor só.Não tem cabimento! É… é prisão sim.Manter-me presa aqui só pra eu aceitar a Jesus como o meu único salvador, ignorância dela.O meu marido não há de estranhar,sabendo que estou bem aqui.Bem entre aspas! Não sei o que pode fazer uma pessoa alucinada.Ali tem o banheiro.Na parede por onde desce a comida é muito apertado.Naquela janelinha,mesmo se retirasse a grade,não passaria o meu corpo..o jeito é esperar pra ver até onde vai a maluquice dela. Tenho de me lembrar.Mas do que? Aqui a gente se escondia pra contar os nossos segredinhos. Ela tinha sempre mais à contar do que eu.Mamãe ficava uma fera quando descia e via nós duas brincado e rindo.Aqui era o quarto do nosso esconderijo.Não há como sair,senão pela porta que só abri do lado de fora.Vou tentar na conversa,se não der,tento me lembrar de algo determinante.Tenho que sair daqui.O quanto continua do mesmo jeito.Ela limpa tudo direitinho,até o banheiro. Se esta gente…eu já tinha me despedido de todo mundo! Tudo planejado.Os minutos,as horas, e até as despedidas.De besta Tereza não tem nada.Como me lembrar de algo arrebatador? ( Ela ouve achave torcendo na fechadura da port
a)

CENA IV

Cena 4
TEREZA:-Tá mais mansa é? Tô Besta,ocê fica feito onça quando me aproximo da porta.O jeito, foi mandar a comida e esperar.
Quanta coisa suja.Tem uma pia ali no banheiro. Podia pelo menos lavar os copos.Era tudo limpinho,agora esta sujeira.
ELVIRA:-Desculpe-me!( ELA ESTÁ COM A BÌBLIA NA MÃO) Estou no meio de uma leitura.
TEREZA:-Isto clarea as idéias.Imagino na sua casa como é.A cozinha deve ser um lixão só.Baratas também descem aqui.Sem contar os ratos do tamanho de um tanque de guerra.
ELVIRA:- Tem aqui,(TÁ ESCRITO AQUI NA BÍBLIA ELA LÊ)Que Daniel tava na cova dos leões.O rei ficou muito preocupado com a prisão dele .Até,até hein! Rezou à Deus para livra-lo das garras dos leões.O rei! Foi o rei que rezou,viu!
TEREZA:-(Arranca a bíblia das mãos dela) Em que canto tá isto aqui?Mentirosa! Pra nós é orar,não rezar.Vai aprendendo.Se o rei fosse de Deus orava,não rezava.
(Vai folheando a bíblia)
ELVIRA:-Aprendeu a ler é? Dizem que depois de velha, arara não aprende língua.
TEREZA:-Sei ler sim.Sei muito bem ajuntar as letras.
ELVIRA:-De cabeça pra baixo?
TEREZA:-(Ela vira a bíblia) Tá cega é? Aonde tá de cabeça pra baixo aqui?Tem catarata nos olhos,só pode.
ELVIRA:-Joãozinho me contou o que fazia antes de virar evangélica.
Já foi até na cidade.Lá aonde eu moro! Um dia passou por aqui um jovem numa moto.Você empirucou na garupa dele e foi lá pra cidade. Sem contar que era conhecida como a afilhada do coronel.Sabe muito bem o que significa afilhada do coronel.As balas,os caricias…a,
pretendida,a escolhida do coronel.E na igreja,ninguém conhece melhor o funcionamento dela do que a Tereza.Era beata sim! Aqui minha irmã,quase todos os homens passou por debaixo da sua saia.Agora é o que é.
TEREZA:-(SENTA NA CAMA) Vem cá,deixa eu catar piolho na sua cabeça.Credo,que cabelo crespo.Tem de ser penteado todo dia,descuidada! Vou lhe contar um segredo.Mas,que fique só entre nós duas.Nem a mãe,nem o pai pode saber tá! Ontem…ontem,me vesti…sabe aquela saia que a mãe não gosta que visto?Pus a calcinha vermelha,fui à missa.Sentei-me bem no banco da frente.Na hora que o padre subiu a hóstia abri as pernas mostrando a calcinha.Quase que o padre dexou,o cálice cair.No fim da missa,me disse:-Quero ver a senhorita na sácristia.Fui,ele estava só de batina.Pegou a minha mão,enfiou-a em baixo da sua batina.Estava sem nada por baixo.A minha mão tocou naquilo…naquilo,cê sabe! Sabe como é o padre Euzebio.Aqui todo mundo sabe tudo,mas ninguém diz nada.Naquela hora, uma beata entrou pra pegar umas coisas.Não viu nada.Também nada perguntou,ou fingiu não ver.O resto,cê pode imaginar.Segredo só nosso.(ELA SE LEVANTA) Não conta nada pra ninguém. Neste quarto,a gente pode esconder as coisas.
Nem da rua,nem de lugar nenhum,podem ver aqui.Embaixo desta janela é só o rio que passa.Me espere aí,vou lavar o rosto.Não sai,a mãe fez a comida que ocê gosta.Sabe come é a mamãe,briga se a gente demora.
(TEREA ENTRA NO BANHEIRO.ELVIRA APROVEITA E SAI CORRENDO CAINDO)

CENA V

Cena 5

MARIA TEREZA SAI DA REALIDADE QUANDO OUVE ALGUMAS VERDADES. ELA ENTRA EM TRANSE. VESTE SEMPRE BLUSA DE MANGA COMPRIDA.SAIA INDO ATÉ OS JOELHOS.CHINELOS DE DEDO.A ROUPA É SEMPRE DE COR CLARA. TEREZA VEM ARRASTANDO ELVIRA PELOS CABELOS.HÁ VESTÍGIOS DE LUTA.MARIA TEREZA ESTÁ COM OS CABELOS DESPENTEADOS.MARIA ELVIRA COM A CAMISOLA RASGADA.ELE JOGA ELVIRA NA CAMA.VAI ATÉ O ESPELHO QUE FICA NA PAREDE PERTO DA PORTA DE ENTRADA DO BANHEIRO.ARRUMA OS CABELOS.ELVIRA SOLUÇA COM A CABEÇA ENTRE O TRAVESSEIRO)
TEREZA:—Se não é Jesus o meu redentor.Que me livra das tentações dos diabo.Eu era capaz de pegar uma corda,amarrar ela ali naquela barra de ferro,e dependurar no seu pescoço.
ELVIRA:—( DE UM PULO SENTA NA CAMA COM OS OLHOS ARREGALADOS) És bem capaz d’uma coisa assim.
TEREZA:—Mas, Jesus me segura a mão.Se né eu vindo no corredor naquele momento.Ocê podia ter ficado doente.Pra que Maria Elvira ocê saiu? Não disse pra ter paciência.Tem ai o banheiro.A comida vem no tempo e a hora.Até sair fumaça sai.Não tenho muita coisa,mas,a que tenho é sua também.
ELVIRA:—O que me pede é muito ousado.Estou feliz sendo cardecista.Não vejo mal nenhum nisto.Fazemos caridade.Amamos o próximo.Isto é ser cristão,é servir a Cristo também.
TEREZA:—Alan Cardec ressuscitou?
ELVIRA:—-Não…claro que não.
TEREZA:—-Pois é! Só um ressuscitou.E à Ele é dado louvor.Não comunga treva com luz.
ELVIRA:—Numa hora dessa lá em casa estão pensando que eu não volto mais.O meu marido deve está louco de preocupado.
TEREZA:—Ainda bem que me lembrou.Jesus que cabeça é esta minha.Eu não recebi uma carta do seu marido menina! Ele disse que brota aqui até o fim de semana.
ELVIRA:—-(FELIZ E SEM ENTENDER) Mentira sua!!! É mentira!
TEREZA:—Hi eu ia brincar com uma coisa desta?
ELVIRA:—-Como sabe o que ele escreveu,não sabe ler?
TEREZA:—-Sei sim,sei muito bem ajuntar as letras.
ELVIRA:—Cadê a carta então
TEREZA:—-Num tô te dizendo.Com a confusão,esqueci a carta em cima da mesa.Só indo buscar.
ELVIRA:—Tá esperando o que? Vai,vai buscar.
TEREZA:—Mas,pra isto tem um preço.Cê num acha que vou lher dar sem nada em troca.
ELVIRA:—Vai começar!
TEREZA:—Já sabendo que ocê ia ficar feliz com a carta do seu marido.Fui lá na igreja.Disse pro pastor que ocê vai no culto de domingo entragar a sua vida pra Jesus.A igreja toda deu um brado de Aleluia!
ELVIRA:—Todo mundo sabe que saí de ônibus faz….faz um mes,não é isso? TEREZA:—Falta alguns dias pra um mês.Eu já arrumei tudo.Disse que ocê caiu doente e não pôde ir.Estou cuidando d’ocê.Hi não é a pura verdade? É só isso Maria
É levantar a mão pra Jesus e tudo se faz novo.Ocê será uma nova criatura.

ELVIRA:—Paulo disse que não é por força nem por violência.A conversão só pode vir por amor.
TEREZA:—E quem é esse Paulo?O que ele sabe? O Pastor disse que o reino de Deus se conquista é por força.Esse Paula não sabe o que diz.
ELVIRA:—Paulo de Tarso Tereza.Foi o homem que ajuntou os cristãos depois de Cristo.Ele escreveu isto.Tai na sua Bíblia.
TEREZA:—E o que foi que eu disse?
ELVIRA:—Que não sabe quem foi Paulo.
TEREZA:—Tá vendo Maria Elvira.Ocê põe palavras na minha boca.Ocê quer é me confundir.Sei muito bem quem foi Paulo.Mas né sua a culpa.É dessa seita que ocê segue.Gente que caminha de mãos dadas com o diabo.Mais eu….eu te livro das mãos deles.Em nome De Jesus.
ELVIRA:—E a carta?vou poder ler?
TEREZA:—Se é sua meu Deus.Vou buscar.Mas o nosso trato?
ELVIRA:—Tá eu vou contigo à igreja.
TEREZA:—( FELIZ MAS NÃO DEMOSTRA) Vai haver uma festa no céu.Uma alma foi resgatada.
ELVIRA:—E que Deus me perdoe.
TEREZA:—(OLHA FIXAMENTE PRA ELA) Tenho achando ocê muito estranha.Quando vinha aqui,ria,cantava,falava das viagens que fez pelo mundo…desta vez não.Veio de nariz empinado.Soberba,autoritária.Ocê é uma pessoa que não conheço mais.
ELVIRA:—E Você? Depois que virou crente.Vestiu esta roupa esquisita,não é mais a mesma também.Nem ler Bíblia sabe,tampouco conhece a história de cada personagem.
TEREZA:–Tá vendo como Ocê é cheia de orgulho.Se vangloria na leitura que sabe.Conheço muito bem.E sei ajuntar as letras.Meu Deus,o Senhor tá de prova que tento entender.Faço do bagaço a garapa p’rocê.E o que ganho? Malcriação e discriminação.
ELVIRA:–Há pouco disse que me mataria se não fosse o seu Jesus.Agora pede à Deus orientação.
TEREZA:—Quer saber Maria Elvira? Quer saber? Num ler é carta nenhuma.Vou demorar pra não ver a sua cara.E aqui cê pode morrer sem ninguém descobrir nada viu!
ELVIRA:—Quando me trancava aqui dizia a mesma coisa,lembra? (ELVIRA ESTAVA COM OS OLHOS CHEIOS D’ÁGUA)
TEREZA:—Era diferente.A gente só brincava.Agora a proposta é outra.Tem ação e tem objetivo bem traçado.Aí meu Deus não chora Maria Elvira.Não chora! Olha,ocê aceita como combinou e a gente esquece.Vou lá.Vou preparar a sua comida.Eu….venho com a carta.Não chora tá! ( TEREZA SAI.E…VOLTA.—Não vou demorar tá! Volto com a sua carta. (DEPOIS TRANCA A PORTA)

CENA IV

Cena VI

( TEREZA ESTÁ OLHANDO À RUA DEBRUÇADA NA JANELA.DONA MARIA DAS COVES VAI PASSANDO COM UM BALAIO NA CABEÇA)
TEREZA:—Como vai a senhora dona Maria da Coves? Vou indo,sabe como é.Foi bom ver a senhora.Tô que não aguento de aperto no coração pelo agravo que fiz à senhora na quele dia.Eu tava muito angustiada.Foi numa epoca de muito entra e sai da minha casa.Fiz….a senhora acredita que fiz até jejum pedindo a Deus que a senhora me perdoace? Tem dona Maria das Coves.Tem sim! Deus não gosta de gente que não pxerdoa o seu semelhante.Tem importância sim senhora.Sei que já é esquecido pela senhora,mas pra mim ainda me doia o coração.Agora sim.Tô de alma lavada.(A DONA MARIA MUDA O ASSUNTO) Falndo que a Maria Elvira não foi embora? Se não foi tá aonde dona Maria das Coves? Muita gente a viu naquela manhã de malas na mão entrando no cata osso.Como ninguém viu.Tão achando o que? enão dona Maria,ela tem de tá numa casa destas dai.Daqui ela saiu e não voltou.Que doença! Se tivesse doente aqui em casa eu não ia dizer? Agora….agora a senhora me botou um desses bichinhos que fuxica a cabeça da gente.Não vou poder dormir sossegada depois do que a senhora me contou.Será que ela e o Joãozinho!!! Eu não acredito! A senhora acha é? Maria Elvira é hoje uma mulher ajuizada.Não ia querer desfazer o casamento de Joãozinho.Viu foi! Então as noites que cheva tarde da noite tava com ele? Dona Maria das Coves!!! Hi eu sou a última a saber.A senhora tem razão dona Maria das Coves.Se não embarcou naquele cata osso,só pode ter ido ficar com ele.E a mulher dele? Então tá explicado.A mulher dele foi passar uns dias na casa da mãe.Juntou a fome com a vontade de comer.No mesmo dia dona Maria? Que engraçado! como planejaram bem.E a senhora,só a senhora acha isto? na venda do seu Juca? Que tem lá? Ham! É de lá que saiu a conversa.E eu aqui na minha inocência de nada sei.Não.Não sabia de nada.Tô sabendo agora que a senhora me conta.ENtão Maria Elvira não entrou naquele cata osso? Saiu daqui de madrugada.Se né eu que a acordo,tinha perdido o….tô vendo que a senhora tá com peso na cabeça.Ponha o balaio no chão ora essa! Tá com pressa? Tá,então tá! Agradeço dona Maria das coves.( TEREZA SAI DA JANELA E FECHA-A) Quer dizer que Maria Elvira andou amassando mato com aquele miserável? Se eu não soubesse aonde ela está.Era capaz de crer na história que a mulher me contou.( TEREZA LEVA A MÃO Á CABEÇA E QUASE CAI) Ui,que pontada na nuca.Uma tonturazinha! Eu quase cai.Que coisa esquisita!
( NO QUARTO MARIA ELVIRA ANDA DE UM LADO À OUTRO COM JEITO DE SATISFEITA)
ELVIRA:—….se o meu marido…deve está preocupado.Pra escrever está…com o tempo….Tereza disse que já tem um mês. É besteira essa ansiedade.É esperar pra ler e conhecer o conteúdo da carta. Que espera meu Deus! Que…..e se ele tiver escrito que vem me buscar? Não.Tereza vai dizer que não estou aqui.Ai,ai está tudo perdido.Ninguém encontra a entrada deste lugar sem conhecer.Saindo da casa.Tem o quintal.No fundo,bem no fundo tem o paiol.Dentro do paiol é que está a entrada.Tem que retirar as tuias.Em baixo de uma bem grade está o alçapão.Depois de aberto no canto a tomada da luz.A gente liga.O corredor fica todo iluminado.Anda-se um pouco e pronto.Eis o quarto.Maria Tereza Não vai deixar….ninguém sabe que este quarto existe.Foi o meu pai que construiu.Ele acreditava que a guerra ia chegar aqui.Ai junto com os irmão as escondidas construiu este quarto pra esconder toda a família.A guerra por aqui não passou.O meu pai e a minha mãe e os irmão morreram.O quarto continua e só Tereza e sabemos da sua existência .Na cidade tem algumas pessoas que acreditam na existência do quarto,mas ninguém tem certeza se é verdade ou não.E aqui estou….( ELA OUVE A FECHADURA DESTRANCAR A PORTA) é ela finamente. ( TEREZA ENTRA COM AS MÃOS NAS COSTAS)
TEREZA:—Quer dizer então que ocê tá lá na casa do Joãozinho?
ELVIRA:—A carta? Dê-me a carta!
TEREZA:—Que sem vergonha é ocê né Maria Elvira? Enganadora! Ao invés de pegar o cata osso,ir pra casa do seu marido.Que fez ocê? Aproveitou que a mulher dele foi cuidar da mãe que tá doente.Foi com ele amassar mato.Fornicar!
ELVIRA:—-Não vou me deixar levar por boatos.A carta aonde está?
TEREZA:—-Boato?! Safadeza…se eu tivesse alguma carta,pensa que lhe daria?Ocê não merece tratamento de gente….fiz tudo p’ocê Maria Elvira.Cuidei d’ocê como a mãe cuida do filho que acabou de nascer.Chegava tarde da noite.Eu pensando que tivesse na casa da comadre Ana.De quem quer que seja,mas,não.Tava lá com ele na safadeza.Eu pensando….(ANTES QUE ELA COMPLETE A FRASE,ELVIRA GRITA)
ELVIRA:—Chega Tereza! Chega,passou da medida! Dê-me logo a maldita carta e suma da minha frente.( TEREZA ARREGALA OS OLHOS.ESFREGA AS MÃOS) .
TEREZA:—Precisa ficar assim? Ai meu Deus,a pontada de novo.( ELA LEVA A MÃO À CABEÇA) Aquela tonteirazinha.Olha eu gente,olha eu! ( TEREZA DÁ DUAS RODAS E CAI NO CHÃO)
ELVIRA:—(APAVORADA) Tereza! Mau Deus,Tereza! ( SACODE-A) Será que morreu? ( ELVIRA COM DIFICULDADE CARREGA TEREZA ATÉ A CAMA.AJEITA-A DE MÃOS SOBRE O PEITO.SE AJEITA DIANTE DO ESPELHO E SAI DEIXANDO A PORTA ABERTA).

CENA II

(No espaço do quarto,tem uma cama bem larga.Perto da porta de entrada,há uma porta que vai dar no banheiro.Na parede perto da porta,há uma minúscula janela,de onde se ouve o barulho de água.Maria Elvira lê uma bíblia assentada na cama)

ELVIRA:--Estou besta.Tereza Deve está retornando a nossa infância,quando me trancava aqui,depois voltava rindo e se desculpando.É no mingau que colocou alguma coisa!...Foi o que comi ontem a noite quando cheguei.(Ela fala imitando a Tereza) Fiz p'rocê besta! Naquela calma! Quem não comeria? Três semanas!...É...
não devo dar atenção as coisa ditas por ela.Deitei-me ontem na cama.Lembro-me ter sido levada por alguém até a cama.Foi ontem,não é uma semana como diz.Ainda estou com a mesma roupa.Se dormisse uma semana inteira,teria morrido.Esta camisola estaria um fedor só.Não tem cabimento! É... é prisão sim.Manter-me presa aqui só pra eu aceitar a Jesus como o meu único salvador, ignorância dela.O meu marido não há de estranhar,sabendo que estou bem aqui.Bem entre aspas! Não sei o que pode fazer uma pessoa alucinada.Ali tem o banheiro.Na parede por onde desce a comida é muito apertado.Naquela janelinha,mesmo se retirasse a grade,não passaria o meu corpo..o jeito é esperar pra ver até onde vai a maluquice dela. Tenho de me lembrar.Mas do que? Aqui a gente se escondia pra contar os nossos segredinhos. Ela tinha sempre mais à contar do que eu.Mamãe ficava uma fera quando descia e via nós duas brincado e rindo.Aqui era o quarto do nosso esconderijo.Não há como sair,senão pela porta que só abri do lado de fora.Vou tentar na conversa,se não der,tento me lembrar de algo determinante.Tenho que sair daqui.O quanto continua do mesmo jeito.Ela limpa tudo direitinho,até o banheiro. Se esta gente...eu já tinha me despedido de todo mundo! Tudo planejado.Os minutos,as horas, e até as despedidas.De besta Tereza não tem nada.Como me lembrar de algo arrebatador? ( Ela ouve achave torcendo na fechadura da porta)

A CLAMAÇÃO

ATO IV
CENA I
TEREZA:-Faz hoje oito dias que Maria Elvira foi embora.Nem um recado.Podia ter telefonado pelo menos pra agradecer a hospedagem.Eu não tenho telefone.Mas,na venda do seu Juca tem.Eles me falam se ela telefonar.Uma ingrata.Sai calada e nem um bilhete manda.(Ouve-se barulho na rua,uma gritaria) Que zueira é essa na minha porta?(Abre a janela).Acabei de pensar n'ocê Maria Elvira.Que faz ai dentro deste carro de polícia menina?Que vergonha meu Deus.Gente da minha família nunca entrou num carro de polícia.Tinha de ser ocê né Maria Elvira!Que fez ela comadre?Buscar a mim? Se tô quieta aqui cuidando dos meus afazeres comadre!Buscar a mim pra que? Ah,pra testemunhar contra ela!É mentira dela.Fala isso de dentro do carro!Sai daí Maria Elvira.Vem dizer pra mim o que a comadre está dizendo.Protegida de que? Não pode por que? Tratei esta malcriada com pão- de- lô.Me trás a polícia pra agradecer.Depois de oito dias,né
Maria Elvira! Vem cá,vem provar na minha cara que lhe prendi,vem!Essa menina saiu corrida daqui,deixou todas as suas malas entupidas de roupa.Deve está nua né Maria Elvira,deixou tudo aqui! Abro não! A minha porta só abro pra quem é enviado de Cristo.Ante- cristo não é.Maria Elvira!!!Aliou-se ao diabo!Quem é a senhora dona Maria das Coves?Uma ninguém. Quem disse isto pra senhora?Aqui não tem quarto secreto.Que quarto secreto,num cochixó de casa desta?A senhora anda é variando.Vai plantar babatata.Rende mais,e não tem piolho.A senhora não limpa os piolho das couves que vende?Deixa a Maria Elvira falar pra mim gente.Ficou muda é?Pode falar sim.Tá na minha porta.Quem é esta mulher ai vestida de homem me olhando com os braços cruzados?Não gosto de mulher não.Sou ovelha de cristo.Ele é o meu pastor,nada me faltará.Esperando quem chegar?Chegar pra quê?Quero ver alguém me arrancar daqui.Tô no meu direito.A casa é minha. Tem madato do juiz,tem?Nenhum de vocês ai têm provas contra mim.Ora Maria Elvira! Maria Elvira é doida.Cês vão acreditar na palavra de uma lunática?Por que não sai deste carro? E o medo de me encarar.Vem falar comigo cara-a cara.Já sei,tá com vergonha.Saiu fugida gente.Agora chora aí no carro dos outros.Êh,seu Juca até o senhor né?Ao invés de ir trabalhar pra dar de comer pra reca de filhos que tem,fica aí fazendo couro pra essa gente que não tem o que fazer.Deus aleijou o senhor na perna errada.O senhor entendeu!A paz do senhor pastor! Pro senhor ver,até pro homem de Deus sobrou.É Maria Elvira! Fugiu da minha casa,dixando todas as suas malas.Agora estão ai querendo arrombar a minha porta.Né isto não pastor!O que a dona Maria das coves diz é mentira.Imagina se eu ia prender a minha própria irmã.Se ela tiver um mandado pra entrar na minha casa,eu deixo entrar.Mulher na polícia....vai procurar roupa pra lavar.Lugar de mulher é cuidando do marido e dos filhos.Tá,se é só o senhor pastor,eu deixo entrar.Vou mostrar pro senhor as malas dela.Aí o senhor vê se tenho razão ou não.Pode verificar se tem quarto secreto,como estão falando.(Ao ínves do pastor, entra a polícial)
POLÍCIAL:-A senhora está presa dona Maria Tereza da Silva.Por provocar as pessoas.Por causar pânico, por resistir a prisão.Por cárcere privado,seqüestro calúnia e defamação.Por resistir a prisão.
TEREZA:-Cadê o pastor? E a Maria Elvira,vai continuar dentro daquele carro é?(Vai à janela) Êh Maria Elvira,se a mãe estivesse viva,ia ver uma coisa.Judas,se comigo é assim,imagina com os outros!(Volta à policial) Esses cães raivosos.Essa igrata!
POLICIAL:-A senhora tem direito a um advogado.Se não tiver,o estado lhe consederá um.Tem o direito de ficar calada.Tudo aquilo que disser,será usado contra a senhora no tribunal.
TEREZA:-Mas,tudo que usar contra mim,em juizo eu a condenarei.
( A pocilial sai levando Maria Tereza pelo braço).

CENA III

(Maria Tereza se veste como se fosse Elvira.Muda a postura.Abre a Janela debruça sobre o para peito).

TEREZA:-- Bom dia com...dona Ana! Não,ela ainda não se levantou.Sabe como é, tem dia que dorme um pouco mais.Eu não me importo.Dá descanso.Tereza tá difícil de aguentar.Implica com tudo.Imagina a senhora que ontem teimou que eu quebrei um vaso de sua estima.Se nem vaso ele tem com...dona Ana.Teima e teima.Disse que o meu arroz é queimado e gruda no fundo da panela.E o meu café? Disse que é de borra de café,pode com...dona Ana? Deve ser.É de Dois anos pra cá.Põe a culpa é em mim.Disse que se não fosse eu ter atado ela à cama...quando foi que atei Tereza à cama com...dona Ana? Pra aceitar a Jesus.Pode alguem prender uma pessoa pra que esta pessoa aceite a Jesus como o seu salvador? Se foi jesus mesmo que disse que não é por força.A própria pessoa é quem tem que tomar a descisão,não acha com...dona ana? Ela é quem me mantém aprisionada aqui.A senhora viu o bafafa que foi.Fala pra ela,fala. É aquela mesma conversa.Do carro da policial e tudo.Ficou dois anos cozendo e cozinhando lá na prisão.Sei que ninguém podia livrá-la,mas com...dona Ana ela não tinha dinheiro para pagar a fiança.Era a fiança ou dois anos reclusa.Foi o que disse a juíza.Ficou dois anos.Pra senhora ver.É o que eu acho também.Diz isso pra ela diz.É capaz de joga uma chaleira de água quente na senhora .
Conversa....essa gente não sabe o que diz.Quem falou do quarto?Que querto secreto com..dona Ana? Cuidou bem de mim sim,durante o tempo que fiquei presa lá.No quarto dela ora! E nem vão encontrar, a entrada é secreta.De mim, a senhora,nem ninguém ficará sabendo de nada.Talvez a Tereza com jeito lhe conte.Eu não.É segredo de família. Banana pressa gente curiosa! Né pra senhora não.O povo deste lugar...como ia dizendo.Ela voltou meio lerda sem dar conta das coisas depois dos
dias de reclusão.De vez em quando fica ali parada,olhando pra não sei pra onde.Diz umas coisas sem razão.(Como se ouvisse Tereza chamar respoande) Já tô indo.Não vai me fazer lambança Tereza.Tenha calma,estou conversando com a com..quer dizer,dona Ana.O seu assunto pode muito bem esperar.É assim,resmunga,grita pra chamar a atenção da gente.Vive falando como se o coronel,o padre Euzebio vivos fossem.Gente esses dois estão lá plantados no semitério.Vá lá dizer à ela que morreram...tem hora que atina,e considera,noutra,diz que eu tô é louca.Na igreja com...dona Ana,não vai mais não.Tanto o pastor quanto as irmãs não aceitam o fato ocorrido.Jesus disse que a gente tem que perdoar as ofenças.Jesus perdoa,os homens não.As leis do homem é dura.Onde já se viu Deus penalizar alguém por causa do dízimo.E o dízimo foi criado para que os povos tivessem mais união e menos egoísmo.Cada um levava os dez por cento estipulados para festejar no lugar que Deus escolhia para ser comido.Não era pra festejar a colheta com..dona Ana? Hoje em dia virou moeda de troca.Riqueza pra quem recebe e castigo pra quem não dá,é mole! Se examinassem as escrituras como os antigos faziam.Saberiam pra que ser o dízimo.Já vai com...quer dizer,dona Ana? Dê lembraças minha a minha...quer dizer... a afilhada de Tereza.Amanhã Tereza fala com a senhora.E a gente ainda aguenta o arado como boi fosse.

(Ela fecha a janela.Dias depois a gente ainda via a janela fechada.Nem a porta era mais aberta.Ficou assim até os dias atuais.Nunca mais aquela jenela foi aberta novamente depois daquele dia.Nem a cidade quis mais ouvir,ou falar no nome de Maria Tereza.Maria Elvira abandonou de vez a cidade)

FIM