quarta-feira, 9 de março de 2011



(Maria tereza está à janela olhando quem passa.Vai dizendo bom dia, um a um).



TEREZA:-Bom dia seu Jenuino! Como é,colhe ou colhe a roça? Com a geada que tem dado né! Esse aí planta dois grãos de milho,quer colher duas toneladas.Tem a paciência! Bom dia Dona Aurora! Tá vindo aí! O cata osso inda não chegou.Sabe como é,tem dia que atrasa,se não furar pneu no caminho, vem. É Maria Elvira a minha irmã. Vem passar o fim de semana aqui.Nesta cidade, o sossego que é,serve de refresco pra que vem.Lá na cidade dela é...a paz do Senhor pastor!Olhe nesta semana não vou poder ajudar na igreja.Vou ter que fazer gosto a Maria Elvira,minha irmã!...a cidade dela...olha lá! Vem ele fumegando feito maria-fumaça.(Ônibus pára diante da venda.Tereza vê a irmã sair dele.Fecha a janela.A irmã bate uma vez,duas vezes.Na terceira vez Tereza abre a porta)
ELVIRA:-Pensei que não morasse mais aqui.Deus me livre fazer esse caminho de volta.Eu não ia suportar.Quanta poeira há nestas estradas.Parece que a gente está dentro de uma maquina de lavar roupa.Ô lugar longe!
TEREZA:-Meu Deus do céu,é ocê Maria Elvira? Tava na cozinha passando o café.Nossa,como cê tá magrinha! Como esses brancinhos conseguiram carregar estas malas da venda até aqui? Devia ter pedido,que seu Juca mandava o menino ajudar.Pra que tanta mala?Pra quem vai ficar só um fim de semana! Deve de tá entupida de roupa.Aqui não tem nada pra ver.Essa cidade é muito quieta.De vez enquanto morre um pra tirar o sossego da gente.Cidade de pouca gente.De gente honrada.
ELVIRA:-Talvez não fique nem uma semana.
TEREZA:-Deixa estas malas aí.Vem cá pra cozinha.O café tá pronto!Cê deve de tá cansada.Viajou a noite toda. Esse cata osso parece um moinho d'água.Se quiser tem sabão,toalha e água é o que não falta.Vai lavar o rosto e as mãos.(Ela vai até o banheiro,volta com as mãos pingando água)Toma a toalha,enxuga estas mãos.(Pega o pano de chão e vai secando as gotas)Meu ladrilho,meu ladrilho!
ELVIRA:-Descansa Tereza!Nem ladrilho isto é.Ardósia é que é!
TEREZA:-Pode me chamar de TÊ,é curtinho.Bonito, e fácil de pronunciar.Todo mundo aqui me chama de Tê.
ELVIRA:-Eu sempre a chamei de Tereza.Não é agora que vou mudar
TEREZA:-Não custa nada! Vou levar a mala lá pro quarto.Que tem dentro? É chumbo é?Nossa que peso!

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DE CORPO PRESENTE






ATO I



CENA I

(Tereza está à janela, vê um menino correndo, grita).

TEREZA:-Pra onde vai com essa pressa toda menino? Ouvi,claro que ouvi!
É o sino tocando pra anunciar a chegada do padre? Quem menino?O coronel Deudato da Fonseca o que? Caiu o quê? Caiu o quê?..De quê?…espera ai!Espera aí menino. Fala mais devagar! Pára de correr e fala peste!
ELVIRA:-Quem caiu do quê Tereza?


TEREZA:-Tô tão acostumada com os que me chamam de
Tê. Até me esqueço que me o meu nome é Tereza.O coronel Deudato da fonseca caiu morto!Tava dando milho pra galinhas.Caiu com a língua de fora.Morreu! Tá lá no inferno.Nunca fez nada de bom pra esta cidade.E o padre que vem, já começa com um defunto pra encomendar. Já vai….Olha lá o cata osso já chegou.É o padre descendo com uma mala na mão.É moço!Muito moço o coitado.Tá aproximando,tá aproximando! Boa tarde seu padre! Fez boa viagem?Chega sempre atrasado seu padre,quando não quebra no caminho, ou… atrasa.(Dirigindo-se à Elvira) Só abanou a cabeça.Padre metido! É o que eu digo,salvos aqui,só nós os Batista.O resto,Deus tenha piedade,estão é no inferno.Tempo há,se se converter de todos os seus pecados.
ELVIRA:-Vou tomar um banho,me vestir,sair por aí pra ver, e ouvir as novidades.Conhecer o tal padre.


TEREZA:-Trocar de roupa pra que? Esta ainda tá limpinha! É casada,mas não honra o nome do marido.Basta sentir cheiro de homens que já se arreganha toda.Essa aí não consegue se manter de pernas fechada.


ELVIRA:–(Chega à porta enrolada numa toalha) Ouvi viu! Com a mesma medida que mede,será medida.A boca fala do que está cheio o coração.


TEREZA:–Eu hein! Agora essa!


CENA II


Cena 2

TEREZA ESTÁ À JANELA) TEREZA:–Bom dia seu Juca! E as crianças? O senhor continua a mancar seu Juca!
Tô vendo! Tô Vendo! Vá à igreja seu juca! O pastor faz uma oração forte,o senhor fica curado.Joga esta muleta fora seu Juca.Com jesus tudo é possível!Ele levou sobre si as nossas dores.Vai mesmo,vou ficar esperando…Vai indo dona Maria da cov aves.Pois é, se fosse na fazendo do falecido,eu ia.Em casa de pecadores não entro.No cemitério que nos recebe de braços abertos…Hi foi? Essa gente não respeita nem os mortos.Que atrevimento,hein! Vou ficar esperando sim.Pra senhora também!
ELVIRA:-Atrevimento de quem Tereza?
TEREZA:-É dona Maria das coves me falando da confusão no velório.
ELVIRA:-Acabou logo.O homem quis apontar qualidades e defeitos do coronel.
TEREZA:-Mas, a missa foi rezada?
ELIVIRA:-Em latim!O padre disse e não disse nada. Virou as costa e rezou em latim.Ninguém entendia uma palavra.Foi uma missa de velório.Língua morta, para um indecente morto.
TEREZA:-Deus me livre! Latim?E o..que venha a ser?
ELVIRA:-É uma língua morta.Caiu em deuso. Antigamente O mundo falava latim ou espanhol.Era a língua dos mares e da terra.Quem não falasse não fazia parte da sociedade.Mataram a língua.Hoje alguns padres falam e é só….fiquei pensan do naquele momento.Quantas crianças retiraram balas na algibeira do coronel?Ele mandava a criança enfiar a mão dentro da algibeira.Bala mesmo a coitada não pegava.Ainda te lembras Maria Tereza?
TEREZA:-Tô sentindo um cheiro esquisito saíndo dali.Tá com jeito de tenda queimada.
ELVIRA:-A coitada da mamãe correndo pra tirar a criança,filho do coronel?O papai não podia saber…Ah,Tereza! Te lembras das balas da algibeira do coronel? Não foi fácil pra mamãe esconder do papai o filho que o coronel lhe pôs.te lembras disto Tereza?
Aqui, Nenhuma criança escapou das balas do coronel.Nem eu! Era estímulo pra mim.Como eu gostava de procurar balas na algibeira do coronel.
TEREZA:-Tem é rato morto em baixo desta cadeira.(Procura o rato)Será a minha mão? Lavei as minhas mãos inda agora.Fubá suado queimado!Tem uma coisa fedendo aqui.
ELVIRA:-Foi uma noite pra relembrar.E o coronel?.. Se regenerou Tereza?Falo de continuar colocando balas na algibeira…Não.As crianças de hoje são mais sabidas.
TEREZA:-Passando pano no assoalho deve tirar o cheiro.Cheiro de rato morto empestea toda a região.E dona Maria das coves que não vem.Esse rato tá precisando é de uma ratoeira..Tão símples é vida,que a gente nem percebe..E o trabalho que dá pra criar uma criança nos dias de hoje.Será que a dona Maria das Coves se esqueceu de mim? Se eu lavar com cuiadado sai o fedor?
(TEREZA OLHA PARA ELVIRA UM TEMPO)
Cê deve de tá com fome.
ELVIRA:—Não.Já comi.
TEREZA:—Comeu aonde.Na igreja ninguém dá.Ainda mais com esse padre.
ELVIRA:—Comi Tereza! Comi!
TEREZA:—Sê besta,eu faço uma merendinha Não demora.
ELVIRA:—Chega Tereza.Que apurinhação.
TEREZA:—Não quer,não quer! Depois que foi morar na capital ficou assim.Metida,esnobe.Quem ocê pensa que é.Vem carregada de roupa.Troca uma de manhã,no meio do dia e ainda troca de noite.E o sapato de salto pra andar nesta rua lamacenta.Não quer,não quer!
ELVIRA:—Vou é me deitar.Ufa que saco!


(TEREZA VAI DE VAGARINHO BATE NA PORTA)
TEREZA:—Se quiser um chá eu faço.


REVELAÇÃO 20:3


ATO II revelação
CENA I
TEREZA:-Vai sai? Trocou de roupa.Desse jeito vai acabar com as suas roupas novas num piscar de olhos. Troca de roupa,como quem troca o perfume.
ELVIRA:-É pra ser apreciada.De propósito!Gosto de sair limpinha.Ser vista desejada. TEREZA:—Com a quantidade de homens que aqui tem.Vai servir é de caçoada.Já tem gente falando.abra bem os olhos.
ELVIRA:—Dispeito.Se falam é por dispeito. (ELVIRA SAI,TEREZA CORRE PRA JANELA)
TEREZA:-Vê se não volta tarde.Não vou ficar esperando, até de madrugada.E janta lá,aonde o galo canta ele janta. como vai comadre Ana?Que foi aquilo comadre?Aquela gente gritando feito cachorros brigando.É o quê!O Juventino é? Que fez o Juventino desta vez?Foi esss..faqueado?Esfaqueiado comadre! por quem meuDeus? Era pra isto acontecer um dia.É… tinha de acontecer.Um homem faz os outros beberem a força.Acaba aparecendo outro maior e tira a magestade dele.E batia na cara dos bestas daqui.Nem morar aqui mora.Ele pega o seu cavalo e vem pra cá berber,raparigar e insultar os besta desta cidade.Quando o coranel era vivo, peitava o valente.Agora com o coronel morto.Ainda bem que apareceu esse de coragem.Ou…Agora é orar.O cão morrer,senão coitado do…quem foi mesmo comadre Ana? quem fez esse favor a cidade? Ninguém viu?O povo tá é com medo de delatar o bem feitor. Ouvi! E aquilo era pedindo água?Aquela gritaria parecia d’um boi sendo cortado ao meio. Deus me livre,vou lá não! Agora é assim… um morto atrás do outro.O cemitério não vai mais cabê tanta gente.Duma hora pra outra…é comadre! E ninguém sabe como isto acaba. Cadê os homens que não acode o malvado?Já vai comadre?Vai com Deus! Dê lembraças minha à minha afilhada. Nem na hora da morte o miserável tem quem o socorra! Tá lá morrendo feito onça ferida.Numa hora desta nem os parentes aparecem.É na morte que os parentes são os melhores.Choram,elogiam,contam metiras.A gente tem que fazer pro sujeito,enquanto ainda vive.Depois de morto o defunto não precisa de mais nada.Só de terra.Senão fica apodrecendo e fedendo pelos cantos.Se tem Jesus,tem esperança de uma outra vida melhor.É descançar nos braços do pai que é bom.O resto é restolho.Só Jesus é a salvação.Eu não passo por um tormento deste tamanho.Na hora da morte vou é feito passarim.

CENA I


Cena i

TEREZA:Parece que acordou disposta hoje?Está com cara de quem andou chupando uva.
ELVIRA:-É de quem amanhceu bem! Eu não diria uva Tereza!A fruta é outra.
TEREZA:-Ontem tava com o diabo no corpo.Agora tá ai com essa saliência toda.Nem vi quando chegou.
ELVIRA:-Não quero discutir nada hoje.É o meu dia de reflexão.É Deus por nós,e o resto que se assuma.Quero é aproveitar enqunto o perfume ainda me acalma a pele.Amanhã!….Amanhã estrei longe disto tudo.Pelo menos alguma coisa boa levo pra me lembrar.
TEREZA:-Meu Deus,já é amanhã!O tempo passou como o vento. Hoje noite vai visitar a minha igreja né!
ELVIRA:-De jeito nenhum! Deixei a noite pra visitar a prima Ritinha.Amanhã sacudo a poeira.Vou sair bem cedo!
TEREZA:-E a promessa? Prometeste!
ELVIRA:-É que aconteceu tanta coisa,numa semana só.Nem deu tempo nem pra pensar.Amanhã viajo mesmo.
TEREZA:-Queria tanto apresentá-la ao meu pastor.Falei de ti com tanta alegria.As irmãs preparam até uns texto da Bíblia pra ler.
ELVIRA:-Pois é! Da próxima vez eu visito a sua tão aclamada igreja.Desta vez não dá.Tentei Tereza,mas não se pode fazer tudo ao mesmo tempo.Ou abro o sorriso,ou me desaguo em lágrimas.Uma coisa de cada vez,não mais.E a Bíblia leio em casa a noite com o marido.É bem lembrado o conselho.
TEREZA:-Que se é de fazer.Mas hoje almoça comigo?Desde que chegou só fica pra lá e pra cá.Comeu aqui só no dia que chegou.Passa tão depressa os dias.Nem parece que aconteceu o que aconteceu aqui.É minha irmã.A gente esquece tudo depressa demais.
ELVIRA:-Fica tudo mundo querendo que almoço na casa deles.Sou uma só gente! E o…Joãozinho me espera hoje na casa dele.
TEREZA:-Joãozinho!!!E a mulher dele sabe? É apressada boba,mas sabe.A cidade toda conhece bem as amassadas de mato dos dois.agora a besta cozinha pra…..

ELVIRA:—Olha lá o que vai dizer com isto.Sou casada,e bem casada.
TEREZA:—E chega as tantas da noite e suspira de manhã.Cheia de cheiro dele.Foi ocê mesma quem disse.Eu só ouvi.
ELVIRA:—Miseravel! Galinha de angola.Não ponha coisas nos cantos da casa.É desse jeito que quer ir para o céu? Filhote de belzebu.(Tereza tasca um tapa com as mãos abertas na cara de Elvira que enconde o rosto com as mãos.Tereza não se dá conta do que fez.Tenta desfazer.
TEREZA:—Meu Jesus,meu Deus ela me atiçou! Elvira,Maria Elvira em nome de Jesus me perdoa! Ai meu Deus,a minha mão! A minha mão! Ah,ela é leve não há de deixar marcas.
ELVIRA:–A gente esquece,e é Deus quem perdoa.
TEREZA:—Jesus perdoa e disto não me lembrarei mais.
ELVIRA:—Uma bofetada afeta,marca o coração da gente.Se até a primavera volta.Do pensamento a marca não sai.
TEREZA:—O primeiro homem a mulher nunca esquece.
ELVIRA:-Por isso não foi ao enterro do coronel?Quem lhe disse que Joãozinho foi o primeiro na minha vida?
TEREZA:-A gente imagina.Vivia os dois agarrados…as suas insinuações não me supreende…Se não foi ele,quem foi?
ELVIRA:–Não foi o mesmo que pôs uma criança na sua barriga?
TEREZA:-Vou começar o almoço.Vou começar o almoço! Já que vai comer por lá mesmo?
ELVIRA:-E a sua a curiosidade? Fica assim… muda?
TEREZA:-Panela que muitos mexem,queima,ou fica salgada.
ELVIRA:-Então até!Não pense que vou esquecer o tapa.O seu Jesus também não vai.(Ela sai.Tereza corre pra janela)
TEREZA:-Bom dia dona Maria das coves! Que noite hein!Acabou de sair.Só fica na rua, de casa em casa.Faço tudo pra mantê-la aqui comigo, ela parece não gostar da minha casa.Faço o que posso.,Obrigar não posso. E o tal do homem,morreu.Não tenho ouvido mais gritos.Como
assim dona Maria? O padre levou lá pra igreja?Esse padre é louco!
Além de rezar missa em latim,entope a igreja de escarnecedores.Adoredores do diabo.Sem contar as
donzelas que deixou embarrigadas por ai.Eu sei dona maria.
Devemos amar o próximo como a nós mesmo.Tá,tá escrito! Mas,
Esse só pode ser próximo do cão.Me admira a senhora com uma
conversa desta.Porque não levou pra casa da senhora então?
já tá no inferno! A senhora não lê a Biblia né! É rude de tudo.Leio
sim.Pelo menos sei ajuntar as letras.Dá pra ler sim.A senhora nem
isto sabe.Se pelo menos soubesse escrever o nome. Vai cuidar das suas couves! Ao ínves de ficar cuidando da vida alheia,não vai tirar os piolhos das suas couves.Com licênça dona Maria das coves.(Fecha a jenela)Gente iguinorante! Onde jé se viu colocar um moribundo na companhia da gente.É louco de pedra
esse padre.Pra quem reza missa em latim.Pode se esparar tudo.(Ela abre a
janela novamente) Hei menino! menino,venha cá! Vê em que casa Elvira está.Na volta,passa na igreja,pergunte o padre como o homem está.Ora que homem?
Juventino,o que foi esfaqueado na venda.Quando voltar lhe dou um ovo,se a galinha botar.Tá bem dou dois! Vá logo,vai!…A paz do senhor Comadre Ana.Pois é! Ainda nem bem o padre Eusebiu é plantado,já se prepara festa pro padre novato.Se bem que o padre Eusebiu já passava o dia pulgando os pecados da carne.Aí o coranel morre.Põe água no fogo,a festa acaba.É tanta enchente em tão poucos dias.Não há terra que suporte.É comadre,a gente tá precisando orar mais pra este lugar.O diabo anda em derredor.(A dona Ana sai),ô comadre!..Me deixou falando sozinha!

CENA II


Cena 2

TEREZA: Será que ele já foi desta pra melh…no caso do sujeito, é pra pior mesmo?

ELVIRA:-Vai lá ver.Já que a curiosidade é maior.
TEREZA:-Deus me livre!Sangue de jesus tem poder!Naquele antro de perdição?
ELVIRA:–Jesus não disse: amar ao próximo com a ti mesmo?Amar ao próximo Maria tereza,é querer tudo aquilo que queremos para nós.É sentir por ele o mesmo que sentimos por nós. É dar a ele, aquilo que almejamos para nós.Como a ti mesmo.É como se o próximo fosse parte de ti.Se ama alguém assim. Não vai querer mal à ele.Aquilo que não quer para si,não quer para o seu próximo.Se você não ama ao seu irmão que vê; não pode amar a Deus que não vê.Lembra da parábola do bom samaritano?O padre é o bom samaritano.Mas,o coração do homem é enganoso.Bom samaritano é o que socorre,ampara,ajuda sem querer algo em troca. E é um ato de amor sim.Quem assim aje, cumpre os dois mandamentos:amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a ti mesmo.Cumprindo as profecias e os profetas.
TEREZA:-O passarinho coitado!Esqueci, coitadinho!Sabia qua tava na hora e nem dei conta do atraso.Vai acabar morrendo se não me apressar.Vou ver,já volto! Tadim do bichi!( ELA VAI ATÉ A COZINHA E VOLTA COM UM PRATO NAS MÃOS) .Fiz um mingauzinho p’rocê besta. Tá quentinho quentinho! Agasalhei o bichinho.Se a gente não cuida,morre. Fiz p’rocê! Coma enquanto tá quentinho.Hoje é dia de frio né!Tem dia que venta tanto.Hoje é um desses dias.Mingau quente é bom,esquenta o peito né! se chove,Deus me livre! A rua fica que é lama só Ainda bem que não me descuido.(Elvira come o mingau,sente uma sonolência).Quer dizer então que amanhã bem cedo embarca.O cata osso sai muito cedo.Tem de descansar.Amanhã será dia de folga.tá é comsono.Do jeito que anda.Tinha mesmo que ficar.Vai dormir lá na cama.Vou lhe ajudar.Magrinha,mas é pesada.Depois levo a sua bolsa.Numa cidade nanica feito a cabaça é preciso carregar bolsa? Quando for embora vai ficar todo mundo falando.Eu é que fico ouvindo a conversa fiada.

A CADELA



ATO I A cadela

Uma cadela mansa,jamais ataca uma pessoa.Ela lhe deixar se achegar à ela.Até lambe a sua mão.Quando a gente menos espera,ela chega de mansinho,morde o calcanhar da pessoa.
TEREZA-Este quarto tem mais conforto.Nem falo da cama larga.
Do banheiro.Mas, do conforto e do silêncio.Aqui nada se ouve.Quando
a gente quer comer.É só puxar a cordinha ali,vai dar diretamente
na cozinha.Pra buscar,é a mesma coisa,os pratos sobem parede
acima.É uma verdadeiro alçapão.
ELVIRA:-O meu corpo tá todo moído! Que horas são Tereza?
TEREZA:Isto nem importa querida. O tempo aqui em baixo é suave,parece não passar.
ELVIRA:-Marquei de almoçar com a dona Maria das coves.
A mulher vai ficar uma fera se eu não for. Adeus descanso amanhã.
TEREZA:-Tem uma coisa que ocê precisa saber. (ELA INTERROMPE) ELVIRA:–Dormi feito pedra…E o que é? Nem vi a hora que cheguei.Esta gente gruda que nem carrapato.
TEREZA:-Hi, numa hora desta ocê já tá é folubiando com o seu marido!
ELVIRA:—Amalucou agora.Que conversa esta?
TEREZA:-Num foi ocê quem pegou o cata osso a três dias atrás pra voltar pra sua casa? Num foi ocê quem se despediu de todo mundo e foi embora?

ELVIRA:–Fui embora como,se acordo ainda aqui de camisola ? E… e Esse corpo todo moído,parecendo que levei uma surra de vara verde.
TEREZA:-É!….Precisamos acertar as coisas,tô vendo que ocê ainda não sabe.Ocê tá precisando é de cuidados.Vou cuidar d’ocê como quem cuida d’uma florzinha delicada,e frágil.Ocê vai se render a Jesus.Ocê é a única pessoa que tenho na família.A minha salvação,é tua salvação.Não posso ir à Deus deixando a última ovelhinha pra trás.E quando aceitar ao senhor jesus como o seu único salvador.Aí cê vai comigo à igreja e será a maior satisfação.Uma alma será salva,e haverá festa no céu.Sabia que pra cada alma salva há uma festa no céu?Apresento-a ao pastor.Ocê aceita Jesus como o seu único salvador.Só isso!Tem nada demais?E é pro seu bem que faço assim. moraremos no céu Maria Elvira.Vamos nos encontrar com Jesus nos altos, juntas. Cê anda muito magrinha.Vai se alimentar bem e vai engordar.Vai ficar como eu.Aí,só aí, lhe levo à igreja.Não vou querer tudo mundo rindo na minha cara dizendo que lhe matei de fome? Não,vamos ficar juntas minha irmã, juntas!
ELVIRA:-Fico imaginado a cara que a mamãe faria se estivesse aqui,e ouvisse a besteira que acabo de ouvir.É de brincadeira,né não? Vou sair,finjo que nada disto foi dito.Amanhã escapo da sua armadilha.Franacamente Tereza,francamente!
TEREZA:–Tem ninguém a lhe esperando lá fora não.Cê tá na sua casa lá da cidade grande.Numa hora dessa tá beijando, e cozinhando para o seu marido.Se é que ocê faz comida pra ele.Tem como escapar de Jesus não.Ele tudo sabe,tudo vê.Tem pra onde escapar não minha irmã.
Aqui todo mundo sabe a vida de todo mundo.Era uma cidade tranquila até ocê chegar.Ocê precisar fazer jejum,e orar pra tirar o diabo do corpo.Sua vinda pra cá trouxe foi morte pra esta cidade.A primeira vitima foi o Padre Euzebiu,o coronel Deudato.Depois o Juventino.Foi só descer do cata osso,pra o mensageiro da morte descer contigo.
É preciso Maria Elvira…é preciso tirar o diabo de dentro do seu
coração.Cabeça vazia,é oficina de satanas.Aqui em baixo,vai poder se curar.Vamos lavar seus pecados no sangue de Jesus. Será outra,as tuas vestes serão lavadas no sangue de Jesus. A honra desta família será restituida.A moral e os bons costumes.
ELVIRA:-Que maluquice está me dizendo?Recuso-me a crer nisto! Não estou aqui pra ouvir isto.Não me obrigue a engrossar.
TEREZA:-Magrinha do jeito que é,não vou precisar fazer muita força.
ELVIRA:-Vai me bater?
TEREZA:-Se precisar,vou.Deu-lhe um pescoção!
ELVIRA:-Sai da porta Tê.Por favor,me deixa passar!
TEREZA:-Agora me chama de Tê né.No dia que pedi,zombou de mim.Tem mais essa de Tê não.Nem marmeda tem mais.Agora é a hora da conversão.É Jesus que está no comando agora.
Deus é de prova que faço isto pro seu bem,nada mais.Devia é me agradecer por pensar na sua saúde,e na sua salvação.nem nisto cê pensa.Estou esvaziado a sua cova.Nossos corpos serão
transformados.Outros morreram a nossa morte.Nós ressucitaremos em Cristo Jesus.Querida irmã.Tenha uma boa noite!Coma o mingau enquan…já esfriou!Agarramos a conversar.Esqueci de olhar o mingau.Vou preparar outro.
ELVIRA:-Precisa não.Não vou comer até que me deixe sair.
TEREZA:-Bom! É bom,jejum santifica e purifica.Vou trazer assim mesmo.
(Tereza sai,tranca a porta por fora)