quarta-feira, 9 de março de 2011

CENA III

Cena 3

No espaço do quarto,tem uma cama bem larga.Perto da porta de entrada,há uma porta que vai dar no banheiro.Na parede perto da porta,há uma minúscula janela,de onde se ouve o barulho de água.Maria Elvira lê uma bíblia assentada na cama)

ELVIRA:–Estou besta.Tereza Deve está retornando a nossa infância,quando me trancava aqui,depois voltava rindo e se desculpando.É no mingau que colocou alguma coisa!…Foi o que comi ontem a noite quando cheguei.(Ela fala imitando a Tereza) Fiz p’rocê besta! Naquela calma! Quem não comeria? Três semanas!…É…
não devo dar atenção as coisa ditas por ela.Deitei-me ontem na cama.Lembro-me ter sido levada por alguém até a cama.Foi ontem,não é uma semana como diz.Ainda estou com a mesma roupa.Se dormisse uma semana inteira,teria morrido.Esta camisola estaria um fedor só.Não tem cabimento! É… é prisão sim.Manter-me presa aqui só pra eu aceitar a Jesus como o meu único salvador, ignorância dela.O meu marido não há de estranhar,sabendo que estou bem aqui.Bem entre aspas! Não sei o que pode fazer uma pessoa alucinada.Ali tem o banheiro.Na parede por onde desce a comida é muito apertado.Naquela janelinha,mesmo se retirasse a grade,não passaria o meu corpo..o jeito é esperar pra ver até onde vai a maluquice dela. Tenho de me lembrar.Mas do que? Aqui a gente se escondia pra contar os nossos segredinhos. Ela tinha sempre mais à contar do que eu.Mamãe ficava uma fera quando descia e via nós duas brincado e rindo.Aqui era o quarto do nosso esconderijo.Não há como sair,senão pela porta que só abri do lado de fora.Vou tentar na conversa,se não der,tento me lembrar de algo determinante.Tenho que sair daqui.O quanto continua do mesmo jeito.Ela limpa tudo direitinho,até o banheiro. Se esta gente…eu já tinha me despedido de todo mundo! Tudo planejado.Os minutos,as horas, e até as despedidas.De besta Tereza não tem nada.Como me lembrar de algo arrebatador? ( Ela ouve achave torcendo na fechadura da port
a)

CENA IV

Cena 4
TEREZA:-Tá mais mansa é? Tô Besta,ocê fica feito onça quando me aproximo da porta.O jeito, foi mandar a comida e esperar.
Quanta coisa suja.Tem uma pia ali no banheiro. Podia pelo menos lavar os copos.Era tudo limpinho,agora esta sujeira.
ELVIRA:-Desculpe-me!( ELA ESTÁ COM A BÌBLIA NA MÃO) Estou no meio de uma leitura.
TEREZA:-Isto clarea as idéias.Imagino na sua casa como é.A cozinha deve ser um lixão só.Baratas também descem aqui.Sem contar os ratos do tamanho de um tanque de guerra.
ELVIRA:- Tem aqui,(TÁ ESCRITO AQUI NA BÍBLIA ELA LÊ)Que Daniel tava na cova dos leões.O rei ficou muito preocupado com a prisão dele .Até,até hein! Rezou à Deus para livra-lo das garras dos leões.O rei! Foi o rei que rezou,viu!
TEREZA:-(Arranca a bíblia das mãos dela) Em que canto tá isto aqui?Mentirosa! Pra nós é orar,não rezar.Vai aprendendo.Se o rei fosse de Deus orava,não rezava.
(Vai folheando a bíblia)
ELVIRA:-Aprendeu a ler é? Dizem que depois de velha, arara não aprende língua.
TEREZA:-Sei ler sim.Sei muito bem ajuntar as letras.
ELVIRA:-De cabeça pra baixo?
TEREZA:-(Ela vira a bíblia) Tá cega é? Aonde tá de cabeça pra baixo aqui?Tem catarata nos olhos,só pode.
ELVIRA:-Joãozinho me contou o que fazia antes de virar evangélica.
Já foi até na cidade.Lá aonde eu moro! Um dia passou por aqui um jovem numa moto.Você empirucou na garupa dele e foi lá pra cidade. Sem contar que era conhecida como a afilhada do coronel.Sabe muito bem o que significa afilhada do coronel.As balas,os caricias…a,
pretendida,a escolhida do coronel.E na igreja,ninguém conhece melhor o funcionamento dela do que a Tereza.Era beata sim! Aqui minha irmã,quase todos os homens passou por debaixo da sua saia.Agora é o que é.
TEREZA:-(SENTA NA CAMA) Vem cá,deixa eu catar piolho na sua cabeça.Credo,que cabelo crespo.Tem de ser penteado todo dia,descuidada! Vou lhe contar um segredo.Mas,que fique só entre nós duas.Nem a mãe,nem o pai pode saber tá! Ontem…ontem,me vesti…sabe aquela saia que a mãe não gosta que visto?Pus a calcinha vermelha,fui à missa.Sentei-me bem no banco da frente.Na hora que o padre subiu a hóstia abri as pernas mostrando a calcinha.Quase que o padre dexou,o cálice cair.No fim da missa,me disse:-Quero ver a senhorita na sácristia.Fui,ele estava só de batina.Pegou a minha mão,enfiou-a em baixo da sua batina.Estava sem nada por baixo.A minha mão tocou naquilo…naquilo,cê sabe! Sabe como é o padre Euzebio.Aqui todo mundo sabe tudo,mas ninguém diz nada.Naquela hora, uma beata entrou pra pegar umas coisas.Não viu nada.Também nada perguntou,ou fingiu não ver.O resto,cê pode imaginar.Segredo só nosso.(ELA SE LEVANTA) Não conta nada pra ninguém. Neste quarto,a gente pode esconder as coisas.
Nem da rua,nem de lugar nenhum,podem ver aqui.Embaixo desta janela é só o rio que passa.Me espere aí,vou lavar o rosto.Não sai,a mãe fez a comida que ocê gosta.Sabe come é a mamãe,briga se a gente demora.
(TEREA ENTRA NO BANHEIRO.ELVIRA APROVEITA E SAI CORRENDO CAINDO)

CENA V

Cena 5

MARIA TEREZA SAI DA REALIDADE QUANDO OUVE ALGUMAS VERDADES. ELA ENTRA EM TRANSE. VESTE SEMPRE BLUSA DE MANGA COMPRIDA.SAIA INDO ATÉ OS JOELHOS.CHINELOS DE DEDO.A ROUPA É SEMPRE DE COR CLARA. TEREZA VEM ARRASTANDO ELVIRA PELOS CABELOS.HÁ VESTÍGIOS DE LUTA.MARIA TEREZA ESTÁ COM OS CABELOS DESPENTEADOS.MARIA ELVIRA COM A CAMISOLA RASGADA.ELE JOGA ELVIRA NA CAMA.VAI ATÉ O ESPELHO QUE FICA NA PAREDE PERTO DA PORTA DE ENTRADA DO BANHEIRO.ARRUMA OS CABELOS.ELVIRA SOLUÇA COM A CABEÇA ENTRE O TRAVESSEIRO)
TEREZA:—Se não é Jesus o meu redentor.Que me livra das tentações dos diabo.Eu era capaz de pegar uma corda,amarrar ela ali naquela barra de ferro,e dependurar no seu pescoço.
ELVIRA:—( DE UM PULO SENTA NA CAMA COM OS OLHOS ARREGALADOS) És bem capaz d’uma coisa assim.
TEREZA:—Mas, Jesus me segura a mão.Se né eu vindo no corredor naquele momento.Ocê podia ter ficado doente.Pra que Maria Elvira ocê saiu? Não disse pra ter paciência.Tem ai o banheiro.A comida vem no tempo e a hora.Até sair fumaça sai.Não tenho muita coisa,mas,a que tenho é sua também.
ELVIRA:—O que me pede é muito ousado.Estou feliz sendo cardecista.Não vejo mal nenhum nisto.Fazemos caridade.Amamos o próximo.Isto é ser cristão,é servir a Cristo também.
TEREZA:—Alan Cardec ressuscitou?
ELVIRA:—-Não…claro que não.
TEREZA:—-Pois é! Só um ressuscitou.E à Ele é dado louvor.Não comunga treva com luz.
ELVIRA:—Numa hora dessa lá em casa estão pensando que eu não volto mais.O meu marido deve está louco de preocupado.
TEREZA:—Ainda bem que me lembrou.Jesus que cabeça é esta minha.Eu não recebi uma carta do seu marido menina! Ele disse que brota aqui até o fim de semana.
ELVIRA:—-(FELIZ E SEM ENTENDER) Mentira sua!!! É mentira!
TEREZA:—Hi eu ia brincar com uma coisa desta?
ELVIRA:—-Como sabe o que ele escreveu,não sabe ler?
TEREZA:—-Sei sim,sei muito bem ajuntar as letras.
ELVIRA:—Cadê a carta então
TEREZA:—-Num tô te dizendo.Com a confusão,esqueci a carta em cima da mesa.Só indo buscar.
ELVIRA:—Tá esperando o que? Vai,vai buscar.
TEREZA:—Mas,pra isto tem um preço.Cê num acha que vou lher dar sem nada em troca.
ELVIRA:—Vai começar!
TEREZA:—Já sabendo que ocê ia ficar feliz com a carta do seu marido.Fui lá na igreja.Disse pro pastor que ocê vai no culto de domingo entragar a sua vida pra Jesus.A igreja toda deu um brado de Aleluia!
ELVIRA:—Todo mundo sabe que saí de ônibus faz….faz um mes,não é isso? TEREZA:—Falta alguns dias pra um mês.Eu já arrumei tudo.Disse que ocê caiu doente e não pôde ir.Estou cuidando d’ocê.Hi não é a pura verdade? É só isso Maria
É levantar a mão pra Jesus e tudo se faz novo.Ocê será uma nova criatura.

ELVIRA:—Paulo disse que não é por força nem por violência.A conversão só pode vir por amor.
TEREZA:—E quem é esse Paulo?O que ele sabe? O Pastor disse que o reino de Deus se conquista é por força.Esse Paula não sabe o que diz.
ELVIRA:—Paulo de Tarso Tereza.Foi o homem que ajuntou os cristãos depois de Cristo.Ele escreveu isto.Tai na sua Bíblia.
TEREZA:—E o que foi que eu disse?
ELVIRA:—Que não sabe quem foi Paulo.
TEREZA:—Tá vendo Maria Elvira.Ocê põe palavras na minha boca.Ocê quer é me confundir.Sei muito bem quem foi Paulo.Mas né sua a culpa.É dessa seita que ocê segue.Gente que caminha de mãos dadas com o diabo.Mais eu….eu te livro das mãos deles.Em nome De Jesus.
ELVIRA:—E a carta?vou poder ler?
TEREZA:—Se é sua meu Deus.Vou buscar.Mas o nosso trato?
ELVIRA:—Tá eu vou contigo à igreja.
TEREZA:—( FELIZ MAS NÃO DEMOSTRA) Vai haver uma festa no céu.Uma alma foi resgatada.
ELVIRA:—E que Deus me perdoe.
TEREZA:—(OLHA FIXAMENTE PRA ELA) Tenho achando ocê muito estranha.Quando vinha aqui,ria,cantava,falava das viagens que fez pelo mundo…desta vez não.Veio de nariz empinado.Soberba,autoritária.Ocê é uma pessoa que não conheço mais.
ELVIRA:—E Você? Depois que virou crente.Vestiu esta roupa esquisita,não é mais a mesma também.Nem ler Bíblia sabe,tampouco conhece a história de cada personagem.
TEREZA:–Tá vendo como Ocê é cheia de orgulho.Se vangloria na leitura que sabe.Conheço muito bem.E sei ajuntar as letras.Meu Deus,o Senhor tá de prova que tento entender.Faço do bagaço a garapa p’rocê.E o que ganho? Malcriação e discriminação.
ELVIRA:–Há pouco disse que me mataria se não fosse o seu Jesus.Agora pede à Deus orientação.
TEREZA:—Quer saber Maria Elvira? Quer saber? Num ler é carta nenhuma.Vou demorar pra não ver a sua cara.E aqui cê pode morrer sem ninguém descobrir nada viu!
ELVIRA:—Quando me trancava aqui dizia a mesma coisa,lembra? (ELVIRA ESTAVA COM OS OLHOS CHEIOS D’ÁGUA)
TEREZA:—Era diferente.A gente só brincava.Agora a proposta é outra.Tem ação e tem objetivo bem traçado.Aí meu Deus não chora Maria Elvira.Não chora! Olha,ocê aceita como combinou e a gente esquece.Vou lá.Vou preparar a sua comida.Eu….venho com a carta.Não chora tá! ( TEREZA SAI.E…VOLTA.—Não vou demorar tá! Volto com a sua carta. (DEPOIS TRANCA A PORTA)

CENA IV

Cena VI

( TEREZA ESTÁ OLHANDO À RUA DEBRUÇADA NA JANELA.DONA MARIA DAS COVES VAI PASSANDO COM UM BALAIO NA CABEÇA)
TEREZA:—Como vai a senhora dona Maria da Coves? Vou indo,sabe como é.Foi bom ver a senhora.Tô que não aguento de aperto no coração pelo agravo que fiz à senhora na quele dia.Eu tava muito angustiada.Foi numa epoca de muito entra e sai da minha casa.Fiz….a senhora acredita que fiz até jejum pedindo a Deus que a senhora me perdoace? Tem dona Maria das Coves.Tem sim! Deus não gosta de gente que não pxerdoa o seu semelhante.Tem importância sim senhora.Sei que já é esquecido pela senhora,mas pra mim ainda me doia o coração.Agora sim.Tô de alma lavada.(A DONA MARIA MUDA O ASSUNTO) Falndo que a Maria Elvira não foi embora? Se não foi tá aonde dona Maria das Coves? Muita gente a viu naquela manhã de malas na mão entrando no cata osso.Como ninguém viu.Tão achando o que? enão dona Maria,ela tem de tá numa casa destas dai.Daqui ela saiu e não voltou.Que doença! Se tivesse doente aqui em casa eu não ia dizer? Agora….agora a senhora me botou um desses bichinhos que fuxica a cabeça da gente.Não vou poder dormir sossegada depois do que a senhora me contou.Será que ela e o Joãozinho!!! Eu não acredito! A senhora acha é? Maria Elvira é hoje uma mulher ajuizada.Não ia querer desfazer o casamento de Joãozinho.Viu foi! Então as noites que cheva tarde da noite tava com ele? Dona Maria das Coves!!! Hi eu sou a última a saber.A senhora tem razão dona Maria das Coves.Se não embarcou naquele cata osso,só pode ter ido ficar com ele.E a mulher dele? Então tá explicado.A mulher dele foi passar uns dias na casa da mãe.Juntou a fome com a vontade de comer.No mesmo dia dona Maria? Que engraçado! como planejaram bem.E a senhora,só a senhora acha isto? na venda do seu Juca? Que tem lá? Ham! É de lá que saiu a conversa.E eu aqui na minha inocência de nada sei.Não.Não sabia de nada.Tô sabendo agora que a senhora me conta.ENtão Maria Elvira não entrou naquele cata osso? Saiu daqui de madrugada.Se né eu que a acordo,tinha perdido o….tô vendo que a senhora tá com peso na cabeça.Ponha o balaio no chão ora essa! Tá com pressa? Tá,então tá! Agradeço dona Maria das coves.( TEREZA SAI DA JANELA E FECHA-A) Quer dizer que Maria Elvira andou amassando mato com aquele miserável? Se eu não soubesse aonde ela está.Era capaz de crer na história que a mulher me contou.( TEREZA LEVA A MÃO Á CABEÇA E QUASE CAI) Ui,que pontada na nuca.Uma tonturazinha! Eu quase cai.Que coisa esquisita!
( NO QUARTO MARIA ELVIRA ANDA DE UM LADO À OUTRO COM JEITO DE SATISFEITA)
ELVIRA:—….se o meu marido…deve está preocupado.Pra escrever está…com o tempo….Tereza disse que já tem um mês. É besteira essa ansiedade.É esperar pra ler e conhecer o conteúdo da carta. Que espera meu Deus! Que…..e se ele tiver escrito que vem me buscar? Não.Tereza vai dizer que não estou aqui.Ai,ai está tudo perdido.Ninguém encontra a entrada deste lugar sem conhecer.Saindo da casa.Tem o quintal.No fundo,bem no fundo tem o paiol.Dentro do paiol é que está a entrada.Tem que retirar as tuias.Em baixo de uma bem grade está o alçapão.Depois de aberto no canto a tomada da luz.A gente liga.O corredor fica todo iluminado.Anda-se um pouco e pronto.Eis o quarto.Maria Tereza Não vai deixar….ninguém sabe que este quarto existe.Foi o meu pai que construiu.Ele acreditava que a guerra ia chegar aqui.Ai junto com os irmão as escondidas construiu este quarto pra esconder toda a família.A guerra por aqui não passou.O meu pai e a minha mãe e os irmão morreram.O quarto continua e só Tereza e sabemos da sua existência .Na cidade tem algumas pessoas que acreditam na existência do quarto,mas ninguém tem certeza se é verdade ou não.E aqui estou….( ELA OUVE A FECHADURA DESTRANCAR A PORTA) é ela finamente. ( TEREZA ENTRA COM AS MÃOS NAS COSTAS)
TEREZA:—Quer dizer então que ocê tá lá na casa do Joãozinho?
ELVIRA:—A carta? Dê-me a carta!
TEREZA:—Que sem vergonha é ocê né Maria Elvira? Enganadora! Ao invés de pegar o cata osso,ir pra casa do seu marido.Que fez ocê? Aproveitou que a mulher dele foi cuidar da mãe que tá doente.Foi com ele amassar mato.Fornicar!
ELVIRA:—-Não vou me deixar levar por boatos.A carta aonde está?
TEREZA:—-Boato?! Safadeza…se eu tivesse alguma carta,pensa que lhe daria?Ocê não merece tratamento de gente….fiz tudo p’ocê Maria Elvira.Cuidei d’ocê como a mãe cuida do filho que acabou de nascer.Chegava tarde da noite.Eu pensando que tivesse na casa da comadre Ana.De quem quer que seja,mas,não.Tava lá com ele na safadeza.Eu pensando….(ANTES QUE ELA COMPLETE A FRASE,ELVIRA GRITA)
ELVIRA:—Chega Tereza! Chega,passou da medida! Dê-me logo a maldita carta e suma da minha frente.( TEREZA ARREGALA OS OLHOS.ESFREGA AS MÃOS) .
TEREZA:—Precisa ficar assim? Ai meu Deus,a pontada de novo.( ELA LEVA A MÃO À CABEÇA) Aquela tonteirazinha.Olha eu gente,olha eu! ( TEREZA DÁ DUAS RODAS E CAI NO CHÃO)
ELVIRA:—(APAVORADA) Tereza! Mau Deus,Tereza! ( SACODE-A) Será que morreu? ( ELVIRA COM DIFICULDADE CARREGA TEREZA ATÉ A CAMA.AJEITA-A DE MÃOS SOBRE O PEITO.SE AJEITA DIANTE DO ESPELHO E SAI DEIXANDO A PORTA ABERTA).

CENA II

(No espaço do quarto,tem uma cama bem larga.Perto da porta de entrada,há uma porta que vai dar no banheiro.Na parede perto da porta,há uma minúscula janela,de onde se ouve o barulho de água.Maria Elvira lê uma bíblia assentada na cama)

ELVIRA:--Estou besta.Tereza Deve está retornando a nossa infância,quando me trancava aqui,depois voltava rindo e se desculpando.É no mingau que colocou alguma coisa!...Foi o que comi ontem a noite quando cheguei.(Ela fala imitando a Tereza) Fiz p'rocê besta! Naquela calma! Quem não comeria? Três semanas!...É...
não devo dar atenção as coisa ditas por ela.Deitei-me ontem na cama.Lembro-me ter sido levada por alguém até a cama.Foi ontem,não é uma semana como diz.Ainda estou com a mesma roupa.Se dormisse uma semana inteira,teria morrido.Esta camisola estaria um fedor só.Não tem cabimento! É... é prisão sim.Manter-me presa aqui só pra eu aceitar a Jesus como o meu único salvador, ignorância dela.O meu marido não há de estranhar,sabendo que estou bem aqui.Bem entre aspas! Não sei o que pode fazer uma pessoa alucinada.Ali tem o banheiro.Na parede por onde desce a comida é muito apertado.Naquela janelinha,mesmo se retirasse a grade,não passaria o meu corpo..o jeito é esperar pra ver até onde vai a maluquice dela. Tenho de me lembrar.Mas do que? Aqui a gente se escondia pra contar os nossos segredinhos. Ela tinha sempre mais à contar do que eu.Mamãe ficava uma fera quando descia e via nós duas brincado e rindo.Aqui era o quarto do nosso esconderijo.Não há como sair,senão pela porta que só abri do lado de fora.Vou tentar na conversa,se não der,tento me lembrar de algo determinante.Tenho que sair daqui.O quanto continua do mesmo jeito.Ela limpa tudo direitinho,até o banheiro. Se esta gente...eu já tinha me despedido de todo mundo! Tudo planejado.Os minutos,as horas, e até as despedidas.De besta Tereza não tem nada.Como me lembrar de algo arrebatador? ( Ela ouve achave torcendo na fechadura da porta)

A CLAMAÇÃO

ATO IV
CENA I
TEREZA:-Faz hoje oito dias que Maria Elvira foi embora.Nem um recado.Podia ter telefonado pelo menos pra agradecer a hospedagem.Eu não tenho telefone.Mas,na venda do seu Juca tem.Eles me falam se ela telefonar.Uma ingrata.Sai calada e nem um bilhete manda.(Ouve-se barulho na rua,uma gritaria) Que zueira é essa na minha porta?(Abre a janela).Acabei de pensar n'ocê Maria Elvira.Que faz ai dentro deste carro de polícia menina?Que vergonha meu Deus.Gente da minha família nunca entrou num carro de polícia.Tinha de ser ocê né Maria Elvira!Que fez ela comadre?Buscar a mim? Se tô quieta aqui cuidando dos meus afazeres comadre!Buscar a mim pra que? Ah,pra testemunhar contra ela!É mentira dela.Fala isso de dentro do carro!Sai daí Maria Elvira.Vem dizer pra mim o que a comadre está dizendo.Protegida de que? Não pode por que? Tratei esta malcriada com pão- de- lô.Me trás a polícia pra agradecer.Depois de oito dias,né
Maria Elvira! Vem cá,vem provar na minha cara que lhe prendi,vem!Essa menina saiu corrida daqui,deixou todas as suas malas entupidas de roupa.Deve está nua né Maria Elvira,deixou tudo aqui! Abro não! A minha porta só abro pra quem é enviado de Cristo.Ante- cristo não é.Maria Elvira!!!Aliou-se ao diabo!Quem é a senhora dona Maria das Coves?Uma ninguém. Quem disse isto pra senhora?Aqui não tem quarto secreto.Que quarto secreto,num cochixó de casa desta?A senhora anda é variando.Vai plantar babatata.Rende mais,e não tem piolho.A senhora não limpa os piolho das couves que vende?Deixa a Maria Elvira falar pra mim gente.Ficou muda é?Pode falar sim.Tá na minha porta.Quem é esta mulher ai vestida de homem me olhando com os braços cruzados?Não gosto de mulher não.Sou ovelha de cristo.Ele é o meu pastor,nada me faltará.Esperando quem chegar?Chegar pra quê?Quero ver alguém me arrancar daqui.Tô no meu direito.A casa é minha. Tem madato do juiz,tem?Nenhum de vocês ai têm provas contra mim.Ora Maria Elvira! Maria Elvira é doida.Cês vão acreditar na palavra de uma lunática?Por que não sai deste carro? E o medo de me encarar.Vem falar comigo cara-a cara.Já sei,tá com vergonha.Saiu fugida gente.Agora chora aí no carro dos outros.Êh,seu Juca até o senhor né?Ao invés de ir trabalhar pra dar de comer pra reca de filhos que tem,fica aí fazendo couro pra essa gente que não tem o que fazer.Deus aleijou o senhor na perna errada.O senhor entendeu!A paz do senhor pastor! Pro senhor ver,até pro homem de Deus sobrou.É Maria Elvira! Fugiu da minha casa,dixando todas as suas malas.Agora estão ai querendo arrombar a minha porta.Né isto não pastor!O que a dona Maria das coves diz é mentira.Imagina se eu ia prender a minha própria irmã.Se ela tiver um mandado pra entrar na minha casa,eu deixo entrar.Mulher na polícia....vai procurar roupa pra lavar.Lugar de mulher é cuidando do marido e dos filhos.Tá,se é só o senhor pastor,eu deixo entrar.Vou mostrar pro senhor as malas dela.Aí o senhor vê se tenho razão ou não.Pode verificar se tem quarto secreto,como estão falando.(Ao ínves do pastor, entra a polícial)
POLÍCIAL:-A senhora está presa dona Maria Tereza da Silva.Por provocar as pessoas.Por causar pânico, por resistir a prisão.Por cárcere privado,seqüestro calúnia e defamação.Por resistir a prisão.
TEREZA:-Cadê o pastor? E a Maria Elvira,vai continuar dentro daquele carro é?(Vai à janela) Êh Maria Elvira,se a mãe estivesse viva,ia ver uma coisa.Judas,se comigo é assim,imagina com os outros!(Volta à policial) Esses cães raivosos.Essa igrata!
POLICIAL:-A senhora tem direito a um advogado.Se não tiver,o estado lhe consederá um.Tem o direito de ficar calada.Tudo aquilo que disser,será usado contra a senhora no tribunal.
TEREZA:-Mas,tudo que usar contra mim,em juizo eu a condenarei.
( A pocilial sai levando Maria Tereza pelo braço).

CENA III

(Maria Tereza se veste como se fosse Elvira.Muda a postura.Abre a Janela debruça sobre o para peito).

TEREZA:-- Bom dia com...dona Ana! Não,ela ainda não se levantou.Sabe como é, tem dia que dorme um pouco mais.Eu não me importo.Dá descanso.Tereza tá difícil de aguentar.Implica com tudo.Imagina a senhora que ontem teimou que eu quebrei um vaso de sua estima.Se nem vaso ele tem com...dona Ana.Teima e teima.Disse que o meu arroz é queimado e gruda no fundo da panela.E o meu café? Disse que é de borra de café,pode com...dona Ana? Deve ser.É de Dois anos pra cá.Põe a culpa é em mim.Disse que se não fosse eu ter atado ela à cama...quando foi que atei Tereza à cama com...dona Ana? Pra aceitar a Jesus.Pode alguem prender uma pessoa pra que esta pessoa aceite a Jesus como o seu salvador? Se foi jesus mesmo que disse que não é por força.A própria pessoa é quem tem que tomar a descisão,não acha com...dona ana? Ela é quem me mantém aprisionada aqui.A senhora viu o bafafa que foi.Fala pra ela,fala. É aquela mesma conversa.Do carro da policial e tudo.Ficou dois anos cozendo e cozinhando lá na prisão.Sei que ninguém podia livrá-la,mas com...dona Ana ela não tinha dinheiro para pagar a fiança.Era a fiança ou dois anos reclusa.Foi o que disse a juíza.Ficou dois anos.Pra senhora ver.É o que eu acho também.Diz isso pra ela diz.É capaz de joga uma chaleira de água quente na senhora .
Conversa....essa gente não sabe o que diz.Quem falou do quarto?Que querto secreto com..dona Ana? Cuidou bem de mim sim,durante o tempo que fiquei presa lá.No quarto dela ora! E nem vão encontrar, a entrada é secreta.De mim, a senhora,nem ninguém ficará sabendo de nada.Talvez a Tereza com jeito lhe conte.Eu não.É segredo de família. Banana pressa gente curiosa! Né pra senhora não.O povo deste lugar...como ia dizendo.Ela voltou meio lerda sem dar conta das coisas depois dos
dias de reclusão.De vez em quando fica ali parada,olhando pra não sei pra onde.Diz umas coisas sem razão.(Como se ouvisse Tereza chamar respoande) Já tô indo.Não vai me fazer lambança Tereza.Tenha calma,estou conversando com a com..quer dizer,dona Ana.O seu assunto pode muito bem esperar.É assim,resmunga,grita pra chamar a atenção da gente.Vive falando como se o coronel,o padre Euzebio vivos fossem.Gente esses dois estão lá plantados no semitério.Vá lá dizer à ela que morreram...tem hora que atina,e considera,noutra,diz que eu tô é louca.Na igreja com...dona Ana,não vai mais não.Tanto o pastor quanto as irmãs não aceitam o fato ocorrido.Jesus disse que a gente tem que perdoar as ofenças.Jesus perdoa,os homens não.As leis do homem é dura.Onde já se viu Deus penalizar alguém por causa do dízimo.E o dízimo foi criado para que os povos tivessem mais união e menos egoísmo.Cada um levava os dez por cento estipulados para festejar no lugar que Deus escolhia para ser comido.Não era pra festejar a colheta com..dona Ana? Hoje em dia virou moeda de troca.Riqueza pra quem recebe e castigo pra quem não dá,é mole! Se examinassem as escrituras como os antigos faziam.Saberiam pra que ser o dízimo.Já vai com...quer dizer,dona Ana? Dê lembraças minha a minha...quer dizer... a afilhada de Tereza.Amanhã Tereza fala com a senhora.E a gente ainda aguenta o arado como boi fosse.

(Ela fecha a janela.Dias depois a gente ainda via a janela fechada.Nem a porta era mais aberta.Ficou assim até os dias atuais.Nunca mais aquela jenela foi aberta novamente depois daquele dia.Nem a cidade quis mais ouvir,ou falar no nome de Maria Tereza.Maria Elvira abandonou de vez a cidade)

FIM